Sobre a falta de representatividade assexual e suas questões

Estamos na Semana da Visibilidade Assexual, você sabia? Se não, está sabendo agora: começou no dia 25 de outubro e vai até o dia 31. Normalmente eu faço uma super programação especial, mas estamos em 2020 e a pouca energia que sobra precisa ser usada para se manter funcional e tudo o mais. Então, nesse ano, eu tenho pra vocês só esse post. Mas é um assunto que tem me consumido, e muito.

Nos últimos dois anos, mais ou menos, tem aparecido vários personagens assexuais na mídia (não sabe do que eu tô falando? Explico aqui). Alguns livros com protagonistas aces foram lançados tanto aqui quanto lá fora, temos um personagem de animação que é canonicamente ace, então parece que as coisas estão mesmo melhorando. Só que é claro que isso não é o suficiente ainda e, o mais importante: pessoas da minha faixa etária cresceram com ficção sob a perspectiva alossexual - ou seja, pessoas que sentem atração sexual com frequência, a "norma". E isso me moldou de tal forma que só fui entender muito recentemente.

Estava eu tranquilamente lendo Teto Pra Dois (que é uma delícia, por sinal. RECOMENDO) quando alguns trechos bateram em mim de um jeito estranho:

Ele se vira de lado para passar por mim. Está fazendo o melhor que pode, mas não há espaço para nós dois, e, no caminho, a pele quente das suas costas esbarra em meu peito. Inspiro fundo, esquecendo a ressaca. Apesar do sutiã de renda e da toalha entre nós, minha pele fica arrepiada e sinto um frio na barriga, onde todas as melhores sensações costumam ficar.

Caramba. Estou toda vermelha, nervosa, arrepiada e sem fôlego - não, estou excitada.

Ele se mexe um pouco. Seu braço esbarra no meu; minha pele fica arrepiada. Eu o ouço respirar fundo quando nos tocamos, apenas um suspiro baixo de surpresa.

Digo estranho porque eu leio romances desde que eu me entendo por gente e esse tipo de descrição aparece em praticamente todos, então eu estou acostumada e bem, eu ESPERO por isso. Mas, nesse dia, eu me dei conta de que esse tipo de reação física a uma pessoa nunca aconteceu comigo e que, bem lá no fundo, eu esperava por esse momento acontecer. Foi aí que bateu a questão que sempre me assolou:: meu deus, tem alguma coisa errada comigo??

Como uma boa surtada, saí perguntando pra todo mundo nos meus grupos de amigos e até no twitter se já tinham sentido ~reações físicas~ ao contato físico com uma pessoa e as respostas foram como um momento de ILUMINAÇÃO pra mim:

- as pessoas alossexuais disseram que sim, e inclusive foram lembrando das histórias com os crushes

- as pessoas assexuais disseram que não ou que é muito raro

Foi aí que eu percebi que coração acelerado, respiração ofegante, sentir a pele quente são sinais de ATRAÇÃO SEXUAL e eu não sabia???? Eu, uma mulher de 27 anos que já teve um número razoável de experiências amorosas/sexuais, que já escreveu um post sobre como entender os tipos de atração, basicamente aprendi de vez o que é atração sexual lendo um livro de romance HAHAHAHAHAHAHA ENFIM, NÉ. 

Depois disso fiquei imaginando como teria sido crescer lendo sobre personagens assexuais. Será que eu teria vivido tão frustrada por tantos anos?

Pois bem, acho que já tenho uma resposta pra isso.

Nesse ano, em meio à quarentena e a minha nova assinatura da netflix, comecei assitir os famigerados DORAMAS (novelas asiáticas). Logo no meu primeiro eu notei que além das cenas de beijo serem MUITO AGUARDADAS e DEMORADAS (se for antes do episódio 6 pode apostar que vem desgraça por aí), os personagens reagem de uma forma muito familiar pra mim. É um estado de não saber bem o que fazer, na maioria dos casos ficam até DE OLHO ABERTO (dá uma agonia kkkkk) e se houver menção a qualquer coisa sexual, a mocinha fica cheia de dedos. E aí teve essa cena, em Oh My Baby!:

Eu tive que dar pause e printar, porque eu estava AOS BERROS!!! A mocinha a essa altura tava já com os quatro pneus arriados pelo mocinho e simplesmente estava se perguntando quanto tempo mais ele ia continuar beijando ela! Basicamente EU, SEMPRE!!!! Primeiro eu preciso já gostar da pessoa pra aceitar bem o contato físico com ela e só passo a gostar disso depois de algum tempo, já acostumada. Mas chega uma hora em que tô tipo "ok, empolgou né? não tá bom não? rs". E EU NUNCA TINHA VISTO ISSO NOS MEUS ROMANCES!!!!

Pela primeira vez na minha vida eu me senti VISTA na ficção e olha, a sensação é indescritível. Mas claro, nem tudo são flores.

Esse comportamento dos personagens é muito criticado pelas dorameiras, a maioria acha que os roteiristas "infantilizam" a personagem ou fazem dela como "puritana". O pior é, por um lado, não estão erradas, porque enquanto os doramas coreanos são cheios de dedos, os filmes são bem...explícitos HAHAHAHAHA. Ainda vou estudar mais sobre essa questão cultural deles e como a assexualidade é vista e tratada por lá, o que com certeza vai render um post. 

Mas esses rótulos são o que assexuais passam a vida toda ouvindo, então me doí ver a reação das pessoas a personagens que se comportam de modo muito parecido com aces. É como se estivessem falando isso pra mim. E também dói me identificar tanto com esses personagens, porque eles não foram criados pra mim e sim pra satisfazer uma audiência que ainda tem muitos tabus. Mais uma vez, me sentindo como a errada da história e, no fim das contas, não tenho representatividade nenhuma

Enfim, agora eu percebo o quanto teria feito a diferença ler ou ver personagens não allo e agora sinto uma fome ainda maior por representatividade. Eu quero ver personagens assexuais (e arromânticos!!) nos doramas, nos filmes blockbuster de Hollywood, nos livros que são sucesso estrondoso no mercado, nas séries da netflix. Cansei de ter que ficar catando threads e recomendações de histórias com aces.

Estamos muito longe de estar bem com a questão da representatividade e, até lá, a gente sofre.


Quer ler mais sobre assexualidade no nosso site? 
Vem cá que tem mais!


Isabelle Fernandes

Mais conhecida como Bells, é psicóloga, pesquisadora e praticante de taekwondo nas horas vagas. É mãe de três gatos, trata os livros como se fossem relíquias e divide o tempo entre ler artigos científicos e mapas astrais

Sobre a falta de representatividade assexual e suas questões Sobre a falta de representatividade assexual e suas questões Reviewed by Isabelle Fernandes on outubro 29, 2020 Rating: 5

Nenhum comentário:

Tecnologia do Blogger.