Love, Victor: uma carta de amor para o além do imaginado

Lançada mais cedo ainda em 2020, Love, Victor é uma série spin-off (em outras palavras, continuação) do filme de 2018, Com Amor, Simon. Contando a história de Victor, um garoto latino-estadunidense que se muda do estado de Texas para o de Georgia após decidido pelos seus pais, a série segue a vida desse adolescente confuso em relação às suas próprias afetividades que precisa lidar, também, com o holofote que o recebe em Creekwood High por ser o mais novo aluno da escola.

Vez ou outra pautada em algumas redes sociais, tais quais Tumblr e Twitter, como uma série sobre um adolescente LGBTQ feita para pessoas heterossexuais, não dá para discordar que a série pode ter pecado em detalhes que se espera reparo na segunda temporada (já confirmada pelo serviço de streaming que a hospeda, Hulu) — mas a representatividade da vivência de um jovem que saiu de um estado conservador e, assim, do núcleo que o impedia de explorar e conhecer o que não compreende (sobre si e o mundo) não é um desses pontos.

Antes de continuarmos, é preciso retratar essa acusatória de Love, Victor ser uma "série LGBTQ feita para pessoas heterossexuais": só porque uma vivência foge das comumente representadas pela grande maioria da mídia não quer dizer que ela seja "menos gay" ou qualquer coisa do gênero. É importante ressaltar, sempre que possível, que as vivências LGBTQ diferem de pessoa para pessoa, especialmente nos termos do Victor — um garoto latino cujo núcleo familiar ainda que mesmo diante a muito avanço é fortemente ligado ao conservadorismo e tradicionalismo, tanto que o próprio tem o total de zero conhecimento acerca de cultura gay no início da narrativa.

Além de que, é necessário pautar como o que se vê em tela nos 10 episódios dessa primeira temporada é uma ilustração muito real e ainda comum na vida de muitos jovens (e, principalmente, adultos e idosos) LGBTQ. A nossa norma ainda é de um entendimento tardio sobre quem somos, algo muito impactado pela homofobia internalizada, bem como heterossexualidade compulsória. Portanto, é preciso entender esses pormenores que constroem o personagem Victor, pormenores esses que são apresentados ao decorrer da série mais de uma vez, seja no primeiro contato dele com Simon Spier, na visita dos avós, ou nas próprias decisões (mesmo que nubladas de julgamento) dele.

Com isso em mente, podemos prosseguir esse texto já com outros olhos.

O Victor é um personagem complexo, errôneo e cheio de camadas, como todos nós somos. E o que não falta na vida de um adolescente confuso em relação a sua sexualidade? Exato, drama. A decisão criativa de seguir os mesmos padrões de uma comédia romântica só ressaltaram e refinaram todos esses aspectos, pois sabemos desde o início que se uma determinada decisão — que pode evitar de muita gente sair machucada, ele incluso — for tomada, vai evitar muito drama. Contudo, se há falta de conflito, não há história. Sem drama não existe comédia romântica.

É uma sacada inteligente justamente porque subverte todo um trope! Ele precisou confrontar, quando enfim pôde se entender, todos os seus conflitos internos para que não vivesse uma vida condenada a infelicidade de seguir se enganando (isso já com o saber de quem era em mãos). Ele não deixou para envelhecer e então lidar com as marcas de toda uma vida nesse futuro que talvez pudesse nunca chegar.

A história do Victor é uma história de alguém que cresceu, se casou com uma mulher mesmo não sendo o que queria, se permitiu a negação do agora para a liberdade do futuro, só que ao contrário! Uma história que foi interrompida de tomar um rumo já não mais necessário graças a certeza de alguém lhe entender, da certeza de hoje vivermos dias melhores — ou que faremos existir dias melhores.

Love, Victor é uma carta de amor a todos que não tiveram essa chance de amar e ser livres.

Jota Albuquerque

Jota é mais um jovem adulto vagando pela vida sem a menor ideia do que está fazendo (ou acontecendo). Tradutor Intérprete em formação, também pensa em se meter com Ciências Políticas e/ou Cinema. Um ser necessitado de paciência e autopreservação, ele é também um paulistano romântico viciado em pesquisas. Se tiver dúvidas de onde encontra-lo, é só seguir as trilhas de discussões políticas que há por aí.

Love, Victor: uma carta de amor para o além do imaginado Love, Victor: uma carta de amor para o além do imaginado Reviewed by Jota Albuquerque on setembro 26, 2020 Rating: 5

Nenhum comentário:

Tecnologia do Blogger.