Dia da Representatividade Bissexual: desejos e anseios para o próximo ano

 



Hoje, dia 23 de setembro, é o dia da visibilidade bissexual. A data, criada por três ativistas bissexuais nos EUA e com sua primeira comemoração em 1999, é uma chamada para a celebração da história e cultura da comunidade bissexual. 

Nem sempre temos motivo pra comemorar, no entanto. Discussões sobre a nossa sexualidade (por pessoas que não são bissexuais, quiçá monodissentes - pessoas que não se atraem por somente um gênero), bifobia comendo solta nas redes sociais, a eterna sensação de não ser bem vindo na comunidade LGBTQIA+ (que apesar da sigla, muitas vezes parece ser só LG). 

Hoje, chamei alguns ativistas bissexuais pra perguntar: o que você espera do próximo dia da visibilidade bissexual? Vem conferir as respostas.

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  • Gabriel Moreira, idealizador do perfil no Instagram "Empodere um Bi"

"No próximo dia da visibilidade bissexual eu espero que consigamos fazer com que, principalmente a comunidade LGBTI+, nos entenda como semelhantes e não negligenciem as nossas particularidades. Espero também que mais pessoas bissexuais se sintam acolhidas e representadas por outras pessoas bissexuais, que a gente consiga criar mais narrativas onde possamos falar sobre o quão político é se afirmar bissexual em uma sociedade moldada sob um olhar binário e LGBTIfóbico."

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  • Iolanda Brasil, ativista bissexual

"Sendo bem honesta, esse ano foi o meu primeiro ano participando ativamente do mês da visibilidade bi. No ano passado eu estava completamente enfiada no armário e desgostosa sobre a minha sexualidade pra pensar em falar de forma orgulhosa da minha bissexualidade em voz alta. Eu lembro que eu comentei que esperava que no ano seguinte (este ano, no caso) eu conseguisse lidar com o mês do orgulho mais segura, sem sentir vergonha. Se as coisas melhoraram de outros meses do orgulho pra cá? Infelizmente acredito que não. Bissexuais seguem sem visibilidade entre LGBTs, esquecidos nas comemorações de junho (mês do orgulho lgbtq+) e em setembro somente nós falamos de nós mesmos. São poucos os produtores de conteúdo lgbtq+ que são bissexuais, até então eu não vi nenhum canal lgbtq+ de grande visibilidade nos dando espaço no mês do orgulho, trabalhamos sozinhos na maior parte do tempo. A invisibilidade dói, mas me deixa feliz ao menos pensar na minha trajetória e lembrar como foi importante pra mim, depois de tanta dor pra me desapegar de uma identidade lésbica que moldou a minha vida até então, ver que eu não estava sozinha nessa e que tinham pessoas incríveis que me ajudaram a me enxergar com o orgulho que eu mereço. Então no fim das contas mesmo que a gente fale pras paredes sobre bifobia, bissexualidade e orgulho, se isso ajudar UMA pessoa bissexual a ter conforto e se amar um pouco mais eu já sinto que evoluímos."

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  • Caio Passos, produtor cultural e ativista de Direitos Humanons e LGBTQIA+

"Se antes LGBTQIAs só apareciam como corpos mortos em jornais hoje podemos criar nossas próprias plataformas de comunicação e colocar nossas questões em pauta. É uma mudança que vem ocorrendo a cada dia, e se observarmos o último ano e agora nossas redes de contato e suporte estão mais fortes e visíveis. Mas à medida que nossa militância cresce o fascismo cresce também em uma resposta cheia de ódio as nossas ações de justiça e libertação. Nesse momento é preciso apoiar aqueles que estão resistindo e fazendo a luta acontecer. 

Uma das melhores maneiras na internet de fortalecer o trabalho de uma organização, ativista, militante ou seja lá o que for é ouvindo e apoiando aquilo eles tem para falar. Leiam o que eles recomendam, compartilhem seu conteúdo, compartilhem com eles suas demandas e deem crédito a intelectualidade e esforço dessas pessoas. Existem mais de 10 coletivos bissexuais no Brasil mas você segue algum deles? Quantos ativistas bissexuais você segue? Você já deixou de comentar aquele clickbait sobre um novo “gênero” absurdo e preferiu compartilhar um conteúdo informativo com fontes confiáveis? Temos que pensar nessas coisas.

Mas essa não é só uma questão da pessoa física e sim política e econômica. No mês da visibilidade LGBTQIA+ várias marcas e entidades disseram apoiar a causa, mas nesse mês estão em silêncio. O bissexual só é interessante se faz parte de uma grande massa que irá consumir algo?! A informação é nossa maior ferramenta para impactar a cultura e assim tornarmos a sociedade mais justa para os vulneráveis.

Eu espero (e irei lutar para isso) que o próximo Dia da Visibilidade Bissexual esteja mais visível, de forma que sua importância seja compreendida e a justiça seja um objetivo comum. E isso só irá acontecer por meio da informação que irá impactar as pessoas, e assim também a cultura de nossa sociedade."

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  • Camila Cerdeira, escritor e um dos anfitriões do Bisão Podcast

"A primeira coisa é que eu espero que as pessoas compreendam que militância não é estar no twitter verbalizando o que se bem entender entrando em tretas e picuinhas mínimas. Militância envolve engajamento com grupos e movimentos políticos, sociais ou estudantis. Nunca é algo que se faça sozinho por si e muito menos sem estudo.

Eu também espero que as discussões de questões que tangem a bissexualidade evolua e que se pare de generalizar. Não, nem toda mulher bissexual é hiperssexualidade, porque existem as questões de mulheres bissexuis gordas, negras de pele escura e de expressão de gênero mais masculina. A bissexualidade é muito mais que discutir bi e pan ou se nossa sexualidade é binária ou não (caso se tenha dúvida, ela não é). Espero que no próximo dia da visibilidade bi a gente comece a discutir e compreender toda interseccionalidade ampla das vidas bissexuais, que se compreenda que somos muitas coisas além de bissexuais e que não existe vivência bi universal."

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  • Louise Calabria, co-fundadore da Revista Brasileñas

"Pro próximo dia da visibilidade bissexual eu espero que nós, bissexuais, sejamos verdadeira e genuinamente ouvidos. Que nos respeitem quando dizemos que nossa sexualidade é válida, que não é binária, que não estamos confusos... Tudo isso que já nos cansamos de falar, mas as pessoas insistem em não escutar. Que parem de tomar conclusões equivocadas que acabam resultando em bifobia. E que não só durante um dia, mas pelo resto do ano, nos deixem em paz, e que nos deixem celebrar nossa sexualidade, tão bela e diversa como é."

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  • Rod Gomes, gordoativista e anfitrião do Imensa Podcast

"Sem duvidas hoje em dia a Internet tem um papel primordial na visibilidade bissexual. Por volta de 2004, comecei a me identificar exatamente por descobri que o que eu sentia tinha um nome e era uma sexualidade possível. Dar visibilidade para pessoas bissexuais não pode acontecer apenas no mês de setembro, época em que não só comemoramos com orgulho nossa sexualidade, mas também estabelecemos um dia demarcador da nossa luta. Dar visibilidade além de fortalecer pessoas que já se identificam com essa sexualidade, também é acolher tantas outras que se sentem mal por ir contra a monossexualidade difundida na sociedade. Como é dito no Manifesto Bissexual, entendemos que a sexualidade é fluida, logo não importa se você deu de encontro com esta fluidez aos 13 anos, como no meu caso, ou aos 67, o que importa é você poder ser livre para amar e se relacionar com as pessoas do jeito que te faz bem. Neste Dia de Visibilidade bissexual espero que as pessoas entendam que a vida é um fluxo fluido de sentimentos e vivências, nada é 8 ou 80."

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  • Maria Freitas, escritora e idealizadora do Cadê LGBT
Por mais que ainda estejamos falando as mesmas coisas, e sendo ignorados, eu vejo que existe um fortalecimento da comunidade bissexual, e tenho esperança de que, depois desse mês, mais pessoas possam ouvir nossa voz, ler nossas histórias e considerar nossas existências.

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  • Henrique Freitas, um dos anfitriões do Bisao Voador
Espero que para o próximo ano, a bissexualidade seja realmente considerada é que o mês de setembro seja aberto pra reforçar outras tantas existências. A bissexualidade existe o ano inteiro e ser lembrada somente em um dia, em uma semana ou em um mês, prova que todos os nossos desejos, por mais que sejam ótimos, são apenas utópicos. Nossa própria comunidade nos esquece e nos invisibiliza. Para o próximo ano, não espero muito, mas espero que as lutas e os diálogos continuem. (r)existimos.

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Nós estamos irritados com aqueles que se recusam a aceitar nossa existência; nossas questões; nossas contribuições; nossas alianças; nossas vozes. É hora da voz bissexual ser ouvida.

Trecho traduzido do Manifesto Bissexual, publicado em 1990



Caroline Cardozo

Caroline faz licenciatura em Física. Tem seu gosto musical formado pela Rádio Cidade e Disk MTV. Gosta de Crepúsculo e Jane Austen. Meio perdida sobre tudo mas nada surpreendente vindo de uma milleniall.

Dia da Representatividade Bissexual: desejos e anseios para o próximo ano Dia da Representatividade Bissexual: desejos e anseios para o próximo ano Reviewed by Caroline Cardozo on setembro 23, 2020 Rating: 5

2 comentários:

  1. Simplesmente sensacional! Resume tudo que precisa ser dito e esperado pro próximo ano <3

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  2. Vejo que o reconhecimento da Bissexualidade é algo que trará a Desconstrução do que sempre nos impuseram como verdade e ela não existe: Hetero!Todos os homens bissexuais que ouvi e até dois deles que chegaram a ser meu namorado, disseram: homem casa ou namora mulher, mais vocacionados a procriação, que atendida ou não (quando a mulher decide não ser mãe), buscam os amigos e, elogiavam eu ser bom ouvinte!Algumas vezes, depois do desabafo, eu e o amigo, transavamos!Meu primeiro namorado, que havia sido noivo, éramos colegas de faculdade, disse que o pai dele também era Bissexual.Ele me deu boas vindas e disse que o filho teve "a coragem" que ele não havia tido. Amenizei e disse que graças a ele eu estava namorando um homem!Estavamos em 1993, três homens em familia,sendo precursores do que em 2021, não se conseguiu alcançar com Unanimidade!E representavamos 3 gerações: eu 27 anos, meu namorado 35 e o pai dele 58 anos!

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