Eu não gosto que me digam que já tá bom de representatividade gay


As representações de homens (cis) se relacionando costumam ganhar mais espaço na mídia. A gente sabe disso, todo mundo sabe. Se não sabia, soube agora. O problema é: essa representação é boa o suficiente?

Representatividade requer complexidade, desenvolvimento, interesse. Representação é tirar um personagem do bolso, inserir ele na história, mas reduzi-lo a um mero objeto que, geralmente, serve somente para realizar algum propósito que se forma na mente dos protagonistas, desaparecendo até ressurgir no momento em que for necessário novamente. É o puro suco da falta de desenvolvimento.

O que não falta por aí são tais ditas representações, a – atualmente – mais conhecida é Kevin, de Riverdale. O garoto, apesar de ser inserido como um dos regulares com um peso até que maior comparado aos demais com a mesma nomenclatura, acaba aparecendo só quando a sua existência é lembrada porque será importante para mover algumas peças na história; caindo na mesma “piada” que se propôs a combater ainda na primeira temporada da série: o trope do Melhor Amigo Gay (em inglês, GBF, Gay Best Friend). 

Apesar de a sala de escritores de Riverdale ter se mostrado nem um pouco disposta até então a tratar questões sérias como estas exigem, na época em que a série ainda estava iniciando a exibição de seus episódios e, assim, também uma febre mundial, um personagem como o Kevin – no caso, o personagem que pintavam que ele seria –, que abraça a própria sexualidade, que se assume com orgulho e que se relaciona com garotos de diversos nichos do Ensino Médio (possuindo, assim, diversos segredos – os quais supunham-se que seriam melhor trabalhados no plot de mistérios e confidências dentro da pequena cidade de Riverdale), prometendo brincar com a noção homofóbica de gay promíscuo, era algo, no mínimo, interessante.

Infelizmente, ele se tornou um personagem unilateral, caindo em estereótipos que não faziam sentido para o seu personagem, ou em temas que deveriam ter levado um tempo maior para que fossem bem explorados no decorrer dos episódios ou, por que não, temporadas. Ele se tornou o melhor amigo gay que só existe pra ser isso: o melhor amigo gay. Qualquer outro tema que introduzem a ele é corrido, pouco aproveitado e/ou mal desenvolvido, como o seu vício em relações sexuais na floresta – em que ele assume que, sem aquela adrenalina, as coisas parecem meio vazias para ele –, a sua relação romântica com Moose, a sua amizade com Josie e até mesmo a sua relação com o seu pai, que tinha um foco muito maior na primeira temporada, além de outros aspectos que não cabem ser pontuados aqui e agora.

O meu ponto é: Toda representatividade é uma representação, mas nem toda representação é uma representatividade. 

Representações não são, necessariamente, representatividades porque não é só a inserção de personagens secundários no plano de fundo que resolve o problema da falta de histórias LGBTQ+ (singulares ou conjuntas) bem contadas, incluindo as histórias de homens e não-bináries gays. Seja pelo cenário televisivo ser composto, em sua maioria, de representatividades gays com personagens que são brancos , magros, cisgêneros, sem deficiências e transtornos psicológicos,  ou por essas ditas histórias ainda serem repetitivas e restritivas, geralmente fora da realidade plural que é ser gay, é necessário o reconhecimento de que esse poço vai muito além do que a gente costuma achar que vá.

Porque, talvez seja uma surpresa para muitos, mas a existência de um homem gay não só pode, como, de fato, difere da de outros homens gays. Inclusive, é nesse ponto que me incomoda quando vejo alguém falando mal de Love, Victor por falar, sendo ela uma série que trouxe uma vivência gay (que não é tão "nova" assim na história da humanidade, dado que é a mais comum devido... bem, tudo) de maneira inovadora para as telas de diversas crianças, adolescentes e adultos que estão se questionando e, provavelmente, vivendo a mesma situação nesse exato momento em que você lê esse texto – e talvez você seja um deles.

O que pesa nessa discussão é que, sim, o reconhecimento de homens (cis) que se relacionam com outros na televisão é mais gritante, é mais divulgado, mas também precisamos questionar os porquês disso acontecer, quais são os ditos reconhecidos e fuçar um pouco mais essa ferida antes de querer criar rinha de opressão. Não adianta dizer que existe mais representatividade gay por aí se os personagens que você se refere passam ideias nocivas do que é ser LGBTQ+, não se rotulam e/ou sequer servem para alguma coisa na história senão para ser token e/ou fetiche alheio. (E vale ressaltar que de personagens assim o mundo tá cheio, e não é só com gays, é com qualquer minoria que tenha o azar de ter gente fazendo desserviço por aí – intencionalmente ou não.)

Além disso, o que você faz? 

Se possível, você divulga tais reps nas suas redes sociais? Você conversa e indica aos seus amigos? Você sai da sua zona de conforto e pesquisa produções que não sejam estadunidenses? Tendo condição, você ajuda projetos que querem sair do papel? “O que você faz?” não é uma pergunta retórica. Você precisa parar e refletir se você também impossibilita de outras mídias LGBTQ+ ganharem espaço. 

O problema não é só quem supostamente tem mais ou quem tem menos (e o que isso quer dizer na sociedade que a gente vive hoje, em como nos vêem), até porque todo mundo está – tecnicamente – no mesmo barco, mas sim se as nossas histórias estão sendo bem contadas, se estão realmente interessados em nos ouvir, em nos fornecer espaço para falar. É muito fácil pautar representatividade sem pensar em todas essas questões, só que a gente vive sendo MUITA coisa numa sociedade de ainda mais MUITAS coisas, nós não somos unilaterais, e TODO MUNDO merece ter a sua história contada. 

Então, o que você faz? O que você está fazendo? O que você pretende fazer? O que você vai fazer? É a ação depois das respostas para essas perguntas que move o mundo.

Jota Albuquerque

Jota é mais um jovem adulto vagando pela vida sem a menor ideia do que está fazendo (ou acontecendo). Tradutor Intérprete em formação, também pensa em se meter com Ciências Políticas e/ou Cinema. Um ser necessitado de paciência e autopreservação, ele é também um paulistano romântico viciado em pesquisas. Se tiver dúvidas de onde encontra-lo, é só seguir as trilhas de discussões políticas que há por aí.

Eu não gosto que me digam que já tá bom de representatividade gay Eu não gosto que me digam que já tá bom de representatividade gay Reviewed by Jota Albuquerque on outubro 01, 2020 Rating: 5

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