Dark e o Livre-Arbítrio: Entender o mundo para quê?




ATENÇÃO: SPOILERS DE DARK A PERDER DE VISTA. ESTEJA CIENTE!!

Se você terminou de assistir a série Dark, da Netflix é possível que tenha se confrontado com alguns questionamentos. Ousaria dizer que o mais comum é algo nas linhas de: “Que porra é essa que eu acabei de assistir?”. Inicialmente, queria deixar claro que a série “em si” é um espetáculo em termos de coisas que eu não compreendo (como atuação, fotografia, roteiro) e que isso por si só já justifica ser assistida; é uma história envolvente com personagens cativantes. Particularmente eu não sou muito entendedor desses elementos cinematográficos de comunicação social e não seria a pessoa mais apta a explicar por que a série me prendeu tanto nesse sentido. Mas sou capaz de falar um motivo pelo qual a série me prendeu, e tem tudo a ver com o tema da série. Não, não estou falando de viagem no tempo. 


O tema "viagem no tempo" é retratado há bastante tempo na cultura popular em obras de ficção científica em geral, e já é consideravelmente “batido”. Porém,  a forma como Dark trabalha o conceito a torna única em um sentido, que pode ser elucidado através do exemplo usado na própria série sobre o Paradoxo de Bootstrap. 


Imagine que uma pessoa, vamos chamá-la de Romilda, recebe uma encomenda um belo dia. Ela abre a encomenda e dentro tem um livro com instruções sobre como criar uma máquina para viajar no tempo. Romilda segue as instruções e, após alguns anos, constrói tal máquina. Com a máquina, ela viaja no tempo para o passado e manda o livro com as instruções para na porta de sua casa, e a Romilda mais nova a recebe, e se torna capaz de seguir as instruções e criar a máquina para viajar no tempo e assim sucessivamente. 

Foto de Romilda, o gato viajante do tempo


Ok. Esse paradoxo pode ser exemplificado de forma análoga com um indivíduo ou uma informação (ao invés de um objeto, no caso, o livro), mas em todas as formas ele sempre vai incitar questionamentos. Algumas perguntas bem importantes são: De onde vem originalmente o livro (objeto/pessoa/informação)? O que aconteceria se Romilda decidisse não passar o livro ao seu eu mais novo? E, para quem quiser se aprofundar um pouco mais na física da coisa (o que não pretendo fazer neste texto), o que acontece com a segunda lei da termodinâmica? *

1)TLDR: Paradoxo de Bootstrap (vídeo no Youtube) [Link em inglês
2) Se você está atrás de um texto que reafirme sua posição de que não é possível “apreciar de verdade” Dark sem entender o impacto que a Segunda lei da Termodinâmica tem no entendimento da série sobre viagem no tempo, ou como o Eterno Retorno de Nietzsche orienta a concepção de mundo circular de tempo da série, você está no lugar errado. Isto é: “Deixa os garoto brincá” (CABIDE, Dj, 1998).


"Mas João, isso não é um texto sobre Dark? Por que esse tal de Paradoxo de Bootstrap é importante?" 

O que pretendo argumentar aqui é que Dark não foge dos paradoxos em sua visão sobre viagem no tempo, mas sim os abraça. E o que dá para a série uma sensação aparente de “amarração” ou “fechamento”, que em geral as histórias sobre viagem no tempo na cultura popular não tem, é a forma como a série lida com o que na minha opinião é o seu tema central: o livre arbítrio. 

Tomemos a segunda pergunta que fiz sobre o Paradoxo de Bootstrap como base: “O que aconteceria se Romilda decidisse não passar o livro ao seu eu mais novo?”. Nesse caso, Romilda mais nova nunca receberia o livro, e portanto, nunca inventaria a viagem no tempo, o que significaria que a Romilda mais velha nunca teria existido em primeiro lugar, certo? Não necessariamente, como veremos a seguir. 

Importante: Não sou físico, apenas alguém alfabetizado em ciências e extremamente curioso. 


A física lida com a questão da viagem no tempo pelo menos desde a Teoria da Relatividade de Einstein. A viagem para o passado, até onde se sabe, não é teoricamente impossível, mas precisaria obedecer a algumas questões. Uma primeira alternativa seria a possibilidade de um multiverso. Nesse caso, ao Romilda decidir não entregar o livro para seu eu mais novo, dois universos distintos estariam se bifurcando: No “Mundo 1” Romilda mais velha já voltou e entregou o livro, possibilitando que Romilda mais nova inventasse a viagem no tempo. No “Mundo 2”, essa Romilda mais velha decide não voltar, e, portanto, sua eu mais nova não inventará a viagem no tempo. Nesse caso, a decisão de voltar ou não voltar podem acontecer indiferentemente separando as “linhas do tempo” em duas distintas. 




Mas e se não existir um multiverso, o que aconteceria? Nesse caso, os físicos admitem que existem duas possibilidades, nenhuma delas muito agradável para a nossa sensibilidade antropocêntrica:

1) Existe algum tipo de censura “cósmica” que faria Romilda acabar por entregar o livro para o seu eu mais novo de uma forma ou de outra. Podemos imaginar, por exemplo, que ao decidir não entregar o livro, Romilda é assassinada em um assalto. Alguém encontra o livro e manda por correio para Romilda mais nova após achar seu endereço em uma lista telefônica, por exemplo (correndo o risco aqui de denunciar minha idade ao referenciar “listas telefônicas”). 



2) Ainda mais perturbador que a “censura cósmica”, porém mais aceito na comunidade científica entre aqueles que teorizam sobre viagem no tempo, é a ausência de livre arbítrio, exemplificada na série pela frase de Arthur Schopenhauer: “O Homem é livre para fazer o que quer, mas não para querer o que quer”, referenciada em diversos momentos da série. Em outras palavras, a série questiona a existência do Livre Arbítrio na medida que afirma que os desejos não são objeto de ação humana, isto é, não temos qualquer “agência” sobre nossas vontades, que de acordo com essa visão, determina nossas “escolhas”. Em última instância, essa abordagem determinística dita que as nossas experiências causam diretamente nossas ações. A série brinca com essa ideia diversas vezes, particularmente na interação entre versões mais velhas e mais novas de um mesmo personagem. 




Uma pequena observação que gostaria de fazer diz respeito a uma característica que me chama a atenção sobre as provocações da série. A linguagem adotada é em geral da física e da filosofia, mas as questões mais gerais postas são extremamente interdisciplinares, como pretendo apontar. 


Não é nenhuma surpresa imaginar que a passagem de tempo é uma reflexão mais comum aos historiadores. O tempo se move de forma linear, como é comum pensar no ocidente, a imagem da “seta do tempo”, seja na visão marxista ou liberal? Ou se move em círculos, como é comumente concebido pela filosofia oriental de matriz confuciana? Será que há alguma linearidade, mas elementos de repetição, como nos ciclos teorizados pelos pensadores do Sistema-Mundo? 


Retomando a questão da “agência”, os limites e a própria existência do livre-arbítrio são questionados de forma explicita ou implícita nas ciências sociais, independente da tradição teórica. Quais são os limites para a ação do agente na história? Em termos mais amplos, o “agente histórico” pode ser diferente de acordo a separação entre os campos do saber (Geografia, Ciência Política, Biologia, Sociologia, Economia, etc.) e escolas de pensamento (Marxista, Liberal, Weberiana, Keynesiana, Realista, Estruturalista, etc.). Podemos fazer a seguinte analogia: Se o mundo funcionasse de acordo com a escola de pensamento/campo do saber, quem é o protagonista da nossa história? Por exemplo, para a psicologia, bem como para os liberais, o “agente” ao qual estamos nos referindo seria o indivíduo. Em abordagens marxistas, o “agente” seria a classe social (em especial, à explorada/dominada). Para algumas escolas de pensamento da Economia, da Ciência Política e das Relações Internacionais, o foco está em geral no Estado Nacional, que é o “agente”. Em todos esses casos, independente da sua inclinação teórico-ideológica ou recorte disciplinar, permanece a questão: qual o limite da ação desse agente? 


Esse debate sobre os limites da agência (ou do “livre arbítrio”) evidencia uma face por vezes ignorada na história do pensamento em diversos campos do conhecimento, que acaba por nos fornecer uma visão equivocada sobre as causalidades no passado. Isto é: Ao superestimar a ação do agente (ou subestimar as limitações da agência/ação), acabamos por encontrar causalidades que muitas vezes não existem, trabalhando com versões idealizadas e superpoderosas desses agentes históricos, o que não apenas limita a nossa capacidade de entender os acontecimentos, mas também nossa capacidade de ação no futuro. 

Em Dark, esse ponto é levantado diversas vezes, e pode ser exemplificado com Adam mandando Jonas ao passado para evitar o suicídio de Michael. Jonas acredita que tem o poder de mudar o passado, e agarra a oportunidade, cego pela visão idealizada de sua própria agência, sem se questionar algo fundamental: se bastava fazer isso para romper o ciclo, e se isso é possível de ser feito, por que seu eu mais velho já não o fez antes? Outro caso seria a tentativa de Claudia de impedir a morte de Egon, que em última instância acaba provocando. Se fosse possível evitar, a Claudia mais velha, que a essa altura já havia aparecido, não teria tentado? Nos dois casos, os personagens estão míopes pela “ilusão do livre-arbítrio” e não se dão conta das forças que estão em movimento. Da mesma forma, alguns especialistas sobrevalorizam a capacidade dos seus agentes, limitados pelas amarras institucionais de suas disciplinas, ou pelas abordagens teóricas que os orientam, sem entender os elementos estruturais que constrangem o mundo a sua volta. 




A série apresenta uma versão exagerada desse raciocínio, em que o livre-arbítrio é limitado de forma quase completa com exceção de uma fração de segundo (durante o Apocalipse) que só vemos em um momento da terceira temporada (momento da separação entre duas Marthas e dois Jonas) e só é explicado por Claudia no penúltimo episódio. Na vida real, não temos uma Claudia para nos explicar quais são as amarras que constrangem nossa ação e como elas de fato condicionam a nossa agência, mas pelo lado positivo, também não parece ser o caso de termos uma ação tão limitada quanto na série, existindo um espaço de “negociação” um pouco maior com esses elementos da estrutura. 


Essa “imobilidade” ou “incapacidade” da ação (seja ela individual, de classe, do Estado, etc.) também é captada por diversas teorias nas ciências sociais. Em geral, qualquer “determinismo” tem em sua base esse tipo de visão da realidade e da história. Um mundo em que uma estrutura rígida determina as ações ou os resultados (nesse último caso, as ações podem ser livres, mas tem pouco ou nenhum impacto). Isso aparece de várias formas na história do pensamento (determinismos geográficos, econômicos, políticos). Cada teoria vai dar a um (ou mais) elemento(s) o papel de ditar a história na qual os agentes assistem se desenrolar de forma praticamente passiva, ou meramente reativa. Segundo essa lógica, bastaria entender como funciona esse “pano de fundo” e já teríamos o caminho da história traçado. Esse pensamento dispensa toda e qualquer reflexão mais aprofundada sobre as ações dos agentes e suas consequências. Em última instância são fatores geográficos, econômicos, políticos ou qualquer outra estrutura metafísica (Deus, por que não?) que guiará a história. 

No apagar das luzes da terceira temporada, a série desafia essa concepção de mundo determinista que havia sido cuidadosamente construída ao longo das duas primeiras temporadas. Existe espaço para o livre-arbítrio, e tanto Adam quanto Eva haviam brincado com essa agência para guiar Jonas e Martha por caminhos distintos e cumprir seus próprios objetivos. Até então, a circularidade da história se mantém, pois ambos sempre fizeram isso e suas ações fazem parte da engrenagem que sustenta essa grande máquina. No entanto, Claudia quebra a circularidade ao utilizar o mesmo artifício que Adam e Eva para guiar uma versão mais jovem de si mesma para um caminho diferente e finalmente entender a estrutura completa, fazendo observações de vários pontos de vista distintos. 


Se Claudia tivesse parado por aí, teríamos tido um final um pouco decepcionante. Poderíamos ter observado Claudia descobrindo peça a peça da engrenagem e “como tudo está conectado”, para enfim se submeter a “como tudo sempre aconteceu”, como ocorre com Jonas/Adam e Martha/Eva. Mas não é isso que acontece. Claudia, com uma visão relativamente “de fora” da história, usa esse seu novo entendimento adquirido sobre o funcionamento do mundo para confrontar Adam e explicar como a circularidade pode ser de fato desfeita, por Jonas e Martha, desfazendo a origem. Não entrarei no mérito do paradoxo que é gerado com o encerramento da série (quem sabe, um próximo texto?), mas o ponto é que é essa ação de Claudia, que finalmente entende o funcionamento da estrutura que a constrange, que possibilita uma mudança radical na estrutura, e, portanto, na história. 



No fim, não fico com a sensação de um “efeito Lost”, por mais que o final possa ser colocado nos mesmos termos (nada do que assistimos era “real”, ou no final, nada daquilo “realmente aconteceu” no mundo de origem), porque para nós, seres humanos, a ideia de que nossas ações importam e tem consequências é algo central para a nossa existência, caso contrário, viveríamos num eterno niilismo. A “moral” do final da série, se é que pode ser colocado nesses termos, é de que por mais sufocante que seja a estrutura (os elementos que constrangem e limitam nossas ações e nossos resultados), existe uma brecha, um pequeno espaço para a ação (que não necessariamente é individual), e para a mudança. É para isso que nos debruçamos sobre essa tarefa hercúlea de tentar compreender e interpretar o mundo. Claudia não sentou a bunda no computador, escreveu um artigo para uma revista científica conceituada e foi dar palestra na Globonews. Ela agiu para transformar uma realidade injusta, miserável e hostil. Claudia não fez isso sozinha, sabia que para destruir a origem precisaria de Jonas e Martha, e soube pedir ajuda no momento certo. Nesse sentido, se tem uma mensagem que eu gostaria de transmitir com esse texto, é essa do bom velhinho (não esse que você está pensando), que segue cada vez mais atual: 

Não basta interpretar o mundo, é necessário transformá-lo. -  Karl Marx

Sobre o autor
Joao V. Guimarães é pesquisador, gosta de jogos (computador, consoles, tabuleiro ou aquela pelada no fim de semana), de tocar instrumentos musicais, torce pelo Flamengo e é apaixonado por D&D.

Pensando por aí

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Dark e o Livre-Arbítrio: Entender o mundo para quê? Dark e o Livre-Arbítrio: Entender o mundo para quê? Reviewed by Pensando por aí on julho 28, 2020 Rating: 5

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