Além do Ordinário: a relação entre ansiedade, ''tchau'' e afins


Ansiedade é um bagulho estranho. Uma hora é só aquele sentimento de um nervosismo que sobe para a cabeça, de espera por algo maior que está por vir a acontecer, na outra é algo que te deixa inquieto da cabeça, pensamentos não param de inundar ela e você se sente sufocado, o coração acelerando conforme a sua respiração parece ir diminuindo e num momento, tudo que existe parece não existir.

Não sei bem quando eu comecei a pensar sobre a diferença entre a ansiedade saudável e a ansiedade-transtorno de novo, mas sei que, quando fui fazer uma atividade de um curso de escrita criativa sobre "o pior e o melhor cenário para escrever", o pior cenário para mim foi o mesmo cenário da minha primeira crise de ansiedade, pelo menos o sentimento era o mesmo. Isso, numa semana particularmente difícil.

Talvez, olhando agora, os resultados do ENEM não tenham sido tão satisfatórios quanto o esperado e assumir isso foi um processo doloroso para começar a lidar com toda a decepção acarretada do resultado.

Expectativas - apesar de importantes para buscarmos coisas melhores - são, sim, prejudiciais em diversos aspectos da vida, especialmente em épocas de vestibulares. E sabem por quê? Porque vestibulares são difíceis e, enquanto tá todo o mundo tentando fazer o mínimo com as condições insalubres oferecidas aos estudantes, talvez todo mundo se sinta assim, mas ninguém fale. E talvez seja essa dificuldade, no meio de milhares de pressões e loucuras para tentar conquistar algo que você tanto deseja e acredita que seja a resposta para algo em seu interior, que torne tudo ainda mais difícil na mais possível das menores das quebras de expectativas. Não é "só mais uma prova", não é "só uma chance entre outras", é muito mais que isso, se tornou muito mais que isso, sempre foi mais que isso...

Quem não se sente constantemente perdido? Fora de sintonia com o mundo? Fora de sintonia com o planeta? E pior, fora de sintonia consigo mesmo? É como o Rubel fala para a Marina em "Partilhar", em parceria das Anavitória: "Não sei não [sobre poder fazer qualquer coisa]. Parece que a cada ano a vida vai afunilando. Antes se eu quisesse ser encanador, era só ser encanador. Hoje...". Não é bem assim. Deixou de ser a muito tempo. Parece muito cedo para qualquer um sentir isso, como se tudo estivesse se fechando e as possibilidades começassem a ser finitas, e não mais infinitas, mas também, quem não se sente assim?

Motivos não faltam, cada dia que passa as incertezas crescem. Emprego, vai ter? Disso, eu gosto o suficiente para continuar fazendo? Isso, é realmente algo que eu quero? Educação, vai decair ainda mais?

Na moral, sobre certeza: O que é? Onde vive? O que come? Sexta em algum lugar, mas sem dúvidas aqui não.

Nisso, não consigo parar de pensar sobre essa crença generalizada de que o amor por algo é uma recompensa para todo o sofrimento que você teve de aguentar e a força para tudo que está por vir. Primeiro: será que o amor é suficiente para aguentar tudo? Segundo: Será que amamos as coisas que amamos a ponto de fazê-las e encontrar equilíbrio? Terceiro: Isso tudo não era para ser fácil?

Seja Brasil ou não, é um ideal social tão insano e longe da realidade que a gente vive porque não existe isso de amor como recompensa de sofrimento e não existe amar algo e por isso aquilo não se tornar um fardo. Essa mentalidade em si gera uma bola de neve de problemas que se acumula sem precedentes porque as pessoas precisam entender que parte de ser humano é reclamar de alguma coisa, é tipo pelo menos 1/3 da constituição mental do indivíduo. E entenda, não é reclamar sem motivos, muito menos por algo trivial. Dedicar-se a algo que ama exige muito mais do que o fazer a algo que você não se importa/odeia com todas as suas forças.

Não digo isso só porque é o que ocorre comigo, mas porque é o que ocorre com todos que conheço que vêem um futuro em que possam também trabalhar com o que amam.

Pegue escritores como exemplo. Se você perguntar para umas cem pessoas que não são escritoras o que é escrever, as respostas mais comuns serão: "é algo mágico", "é algo que qualquer um pode fazer", "é um meio terapêutico de desabafar", "é um talento", e por aí vai; o que ninguém te fala é que escrita é difícil, possivelmente uma das coisas mais difíceis de se fazer, especialmente se for de maneira criativa porque não existe fórmula mágica. Claro, existem algumas regras, mas são todas que definitivamente não são concretas e, portanto, podem ser quebradas. É você tatear no escuro tentando encontrar algo que é seu e cada momento que passa você ficar cada vez mais desesperado por não conseguir saber se está certo, se achou, se existe um momento que você vai poder ter certeza... É a definição de "tatear no escuro" mais literal - figurativamente falando - que existe.

Você pode pesquisar e estudar, saber todas as regras, todas as dicas, todos os atalhos e diferentes processos de escrita, mas nada disso irá garantir a você facilidade na escrita. E por que isso? Porque escrita é sobre diferentes pessoas, é sobre sentimentos, é, em resumo, sobre a instabilidade da vida. E pessoas e sentimentos são instáveis, por mais que busquemos controle, às vezes não falamos o que queríamos, muitas vezes descontamos nossas frustrações em outras e estamos aprendendo e, como diria Ben Platt, crescendo conforme vamos vivendo.

Exatamente por essas questões que muitas vezes não nos sentimos preparados pra lançar ao mundo um pedaço do que colocamos em um papel, porque é um momento que reconhecemos que não somos perfeitos, que não vamos agradar ao mundo todo e, mais objetivamente, não dominamos toda a razão, todo o conhecimento por detrás do que apresentamos (ou seja = não temos a menor ideia do que estamos fazendo). Além disso, para muitos, não se sentir preparado também deriva do medo de compartilhar algo pessoal demais, já que toda escrita parte da vida, das experiências vividas ou ouvidas nela, os autores muitas vezes possuem conectividade extrema com determinados assuntos, personagens e histórias. E tudo isso às vezes é cansativo, ensurdecedor, pesado e sufocante demais, acabando por dar a sensação de fardo, que vai, dia após dia, criando mais bloqueios. E, não se engane, isso não vale só para a escritores.

"Eu só estou exauste (a/o)."

Porque enquanto a vida continua correndo, os dias continuam passando e os problemas continuam vindo pedindo por novas resoluções, vale a pena se agarrar a uma coisa que você talvez nem queira mais? Só que é aquilo: como e quando saber se aquilo não te é desejado mais se você não tem a menor ideia do que deseja ou não? E por que esse medo de estar escolhendo um caminho errado, se foi o que escolheu? E por que ele seria errado, se foi justamente esse o que escolheu?

Pensamos muito sobre começos, e apesar disso ser muito bom, esquecemos do que trilhamos, do que desistimos e do que batalhamos por medo. Um medo não tão irracional quanto muitos pensam, mas deveras paralisador e potencializador de uma desistência prematura visando evitar uma incerteza, visando repor os "e se...?" em nossas cabeças. Nada nunca é sobre o contínuo, é sempre sobre o começo e, talvez, o fim, esquecendo que é no meio que as coisas florescem, e é aí que muitos complexos começam. Amar alguma coisa não deveria ser uma sentença eterna, mas uma jura volúvel. Nem tudo tem que ser eterno, mas também, nem tudo tem que ser inflexível.

Por que não tentar, ao invés de jogar tudo isso fora, incrementar coisas? Será que não tem um jeito de você fazer tudo que quer sem ter que abdicar de algo que também é o que deseja? Num mundo tão grande assim, cheio de possibilidades, não existe alguém que possa te ajudar nessas listas de prós e contras que você não para de fazer na cabeça (e não digo necessariamente pessoas que conheça, pode ser um youtuber fazendo vídeos sobre)?

Contudo, se depois dessas questões o adeus for uma certeza, tá tudo bem. E sabe por quê? Porque dizer "tchau" para algo é reconhecer que você é humilde o suficiente pra admitir que nem sempre você precisa (ou vai) acertar em tudo de primeira e, também, que ainda tem muito o que aprender. O "tchau" é muito sobre crescer, amadurecer e encarar a vida, porque também merecemos viver coisas incríveis, não importa quantas voltas trás teremos de fazer.

Jota Albuquerque

Jota é mais um jovem adulto vagando pela vida sem a menor ideia do que está fazendo (ou acontecendo). Tradutor Intérprete em formação, também pensa em se meter com Ciências Políticas e/ou Cinema. Um ser necessitado de paciência e autopreservação, ele é também um paulistano romântico viciado em pesquisas. Se tiver dúvidas de onde encontra-lo, é só seguir as trilhas de discussões políticas que há por aí.

Além do Ordinário: a relação entre ansiedade, ''tchau'' e afins Além do Ordinário: a relação entre ansiedade, ''tchau'' e afins Reviewed by Jota Albuquerque on julho 23, 2020 Rating: 5

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