Bash Brothers: como The Lonely Island usou o esporte para ridicularizar os estereótipos de masculinidade



Há um ano chegava à Netflix o poema visual “The Unauthorized Bash Brothers Experience”, escrito e produzido pelo grupo The Lonely Island, do qual Andy Samberg (Jake Peralta, de "Brooklyn 99") faz parte ao lado de Akiva Schaffer e Jorma Taccone. O especial, com duração de 30 minutos, traz os personagens Jose Canseco e Mark McGwire baseados nos jogadores reais do time Oakland Athletics no final dos anos 80 e que conquistaram o título na Major League Baseball (campeonato americano de beisebol) em 1989. Juntos, eles ficaram conhecidos como “bash brothers” (irmãos bash) e comemoravam seus “home runs” batendo os antebraços, o que logo se tornou característico da dupla.

Mesmo aqueles que já estão familiarizados com o tipo de humor que The Lonely Island faz desde o início da carreira, quando começaram a fazer raps e videoclipes no Saturday Night Live, podem ter deixado passar alguns detalhes que tornam Bash Brothers tão único para a comédia. Apesar da linguagem agressiva e do uso excessivo de palavrões, o grupo mostra que é possível fazer do humor nonsense, algo inteligente e profundo, ao parodiar o comportamento de homens brancos cis héteros e explorar todas as nuances que esse universo oferece.

O poema visual se inicia imaginando um cenário onde esses jogadores resolveram lançar um álbum de raps. A primeira música apresenta os irmãos bash, Jose e Mark, com os personagens fazendo sua exibição de poder, prestígio e força devido ao uso de anabolizantes e monstrando a escolha deles em sacrificar a saúde pelo sucesso e fama como vemos no trecho “insuficiência renal é apenas parte do jogo, não temos vergonha agora, porque o mundo sabe a p*rra do meu nome”. O tom é o mesmo na segunda música, onde também ostentam uma vida de luxo. É interessante analisar o quanto a linguagem da dupla demonstra uma confiança baseada em seu privilégio e poder. 

Quando “Okland nights” começa, vemos que Jose e Mark usam de sua riqueza para chamar a atenção das mulheres, representando a crença de alguns homens de que as mulheres se interessam por isso e que, dessa forma, eles podem conquistá-las facilmente. Eles também usam do cuidado com o corpo e da aparência física para chamar a atenção delas, o que é irônico já que a preocupação com a saúde não era o foco, quando eles disseram anteriormente que a insuficiência renal era apenas mais uma parte do jogo. Eles cantam: “o maior afrodisíaco é a aptidão física” reforçando os padrões estéticos inalcançáveis. No trecho “eu faço bonecos de sombra eróticos à luz de velas” a gente vê ridicularizada a forma como os homens flertam, demonstrando imaturidade, não muito diferente da realidade. No verso “eu sou um profissional quando eu faço, mas eu faço isso de graça”, notamos a super valorização da imagem que esses homens vendem e ao dizer que “você trabalha duro então você merece”, mostra a visão masculina de que a mulher precisa do que eles tem para oferecer. Menção honrosa para a maravilhosa participação especial de Sterling K. Brown (Randall Pearson em This Is Us) que participou a convite do próprio Andy Samberg depois de ter feito parte de um episódio de Brooklyn 99 (episódio intitulado “The Box”, na quinta temporada) e que trouxe ainda mais diversão para a música ao dublar a parte em que a Sia canta.

Em “focused AF”, vemos os personagens em uma demonstração ridícula de virilidade ao que Jose diz “meu corpo é uma máquina”. Jose pergunta “onde é o limite?" ao que Mark responde dizendo que não há limites e então ele pergunta “e qual é o objetivo?” e ambos respondem “para fazer o papai finalmente me amar!”. A partir desse momento começamos a ver a vulnerabilidade que os irmãos bash normalmente se esforçam para esconder, deixando aparecer os problemas emocionais causados pela ausência de seus pais. A música termina com Jose cantando para um poster da Kathy Ireland “você é a única que conhece a minha dor e é a única que vê minha vergonha.” mas Mark interrompe dizendo “e aí Jose, vamos, cara, estamos atrasados para o jogo” que nos mostra que esses personagens usam o esporte para mascarar as emoções e os problemas pessoais intrínsecos não resolvidos.

Então os personagens vão para a academia, afinal eles devem trabalhar seus corpos para atender aos padrões estéticos que eles mostram o tempo todo valorizar. Mas o que a gente vê nessa música é que eles vão para poder olhar as mulheres que estão se exercitando, usando a desculpa de que eles precisam da ajuda delas. Quando eles dizem “uma bebê entrou e ela queria que eu a levantasse mas ela estava de calça de moletom, então eu a demiti” eles representam a visão dos homens que esperam que as mulheres usem roupas curtas e coladas para que eles possam admirar, justificando que esse visual seria realmente necessário para a realização das atividades físicas, o que, obviamente, não é. O momento em que eles dizem “muitos garotos ficam tipo: ‘ei como você tá?’ e eles querem tirar vantagem e fazer sexo com as gatinhas que estão aqui para um treino, não para um encontro. Então mantenha seu p*u na calça e tratem essas bebês com respeito” é contraditório com as atitudes deles mesmos e toca na questão de que algumas vezes os homens se posicionam a favor do ponto de vista das mulheres apenas para que seu próprio comportamento seja relevado ou disfarçado.

Na música seguinte, a gente vê que a agressividade impulsiva dos personagens é justificada pelo uso de esteróides, como Mark diz no trecho “sinto muito Bob, são os esteróides, eles f*dem com o meu humor. Agora coloque as bijuterias na sacola antes que eu exploda”. Então Jose e Mark partem para uma festa em um estacionamento, onde há mulheres dançando e se divertindo. No início, eles assistem, parecendo estar se divertindo também, mas no momento em que elas os cercam e começam a gritar “agita essa bunda”, eles se sentem intimidados e começam a gritar por ajuda. Aqui vemos uma inversão de papéis da realidade onde as mulheres frequentemente são objetificadas e vistas como forma de entretenimento para os homens. A música muda do tom festivo para um tom dramático e reflexivo quando Jose diz “E qual é o preço da fama? Minha família ficará orgulhosa de seu nome? Parece que meu corpo é um trem descarrilhado. Mamãe, por favor me ajude, eu estou ficando louco” e vemos como os personagens demonstram pouco equilíbrio emocional, se infantilizando ao pedir pela ajuda da mãe. Ao final da música, uma mulher, repórter, diz “Uau, parece que ser famoso é realmente difícil. Aliás, você se importaria de mexer a bunda para a câmera?” mais uma vez fazendo a inversão de papéis com o sexo oposto que frequentemente é objetificado pela mídia. Vale lembrar que essa música contou com a participação da atriz Stephanie Beatriz, que interpreta a personagem Rosa Diaz ao lado de Andy Samberg em Brooklyn 99.

Os personagens que ostentaram um discurso extremamente confiante no início, agora assumem um tom vulnerável enquanto gritam desesperadamente pela atenção de seus pais, como no trecho “Papai, você me viu? (Veja o que eu posso fazer) Papai, você me ouviu chorando? Papai, você pode ver que estou morrendo?”, mostrando o impacto da falta da atenção dos pais ao longo de suas vidas e a cobrança para que os filhos fizessem sempre mais do que conseguiam como vemos no trecho “mas você sempre quer mais, pai”. E então ele repete o que seu pai lhe dizia: “a terapia é para perdedores, garotinho, a terapia é para perdedores” fruto da masculinidade tóxica de que os homens devem ser durões, tirando deles o direito de entrar em contato com seu lado sensível, ignorando o cuidado com a saúde mental. No trecho “Comprar todos os meus esteróides a granel, quero ficar grande como o Hulk, mais forte que os dentes de Wolverine” nós entendemos parte do porque os personagens buscam refúgio no uso de esteróides e, dessa forma, suprir a falta da atenção dos pais. Então um repórter pede para Jose comentar o encontro que teve na noite passada, ao que ele responde “Ei, qual é? Vocês sabem que eu não beijo e saio contando” mas ele começa a se gabar sobre seu encontro com Madonna (segundo o próprio Jose Canseco admitiu em entrevista, eles tiveram um breve envolvimento na vida real). Enquanto Jose se gaba de sua nova conquista amorosa, Mark conta sobre ter saído para jantar com sua mãe: “Ela disse que estava orgulhosa de seu bebê (que sou eu) então, acho que nós dois tivemos uma semana louca”. É interessante ver como mais uma vez os personagens se infantilizam diante dos pais, demonstrando o quanto são carentes de sua atenção. Ao final da música, Jose e Mark se encaram ao dizer o trecho “Mantenha sua boca fechada. Sem delação sobre os esteróides”. Isso diz respeito a uma polêmica que aconteceu entre os jogadores na vida real quando Jose admitiu, em seu livro, anos depois de se aposentar, que eles faziam uso de anabolizantes enquanto jogavam. Na época, Mark negou a acusação.

A próxima música começa com Jose dizendo “Estou no auge da minha carreira, então por que me sinto triste?” . Aparentemente a vida de ostentação e fama não foram suficientes para preencher o vazio e diz “Ultimamente não reconheço meu próprio rosto no espelho, eu sou um monstro, não o homem que eu quero ser mas concentre-se no jogo, Jose. O jogo, Jose. Não seja tolo, não jogue tudo fora”, enquanto Mark canta “Não falo com a minha mãe há duas semanas, as coisas em casa estão ainda mais sombrias. Concentre-se no jogo, Mark. O jogo, Mark. Concentre-se no jogo, Mark”. Fica claro que os personagens usam o esporte para mascarar suas fragilidades. Com a fama, vem a pressão para a perfeição, cobrando cada vez mais deles: “Então não olhe para mim porque estou sozinho no campo esquerdo pensando em toda a m*rda que eu fiz para chegar até aqui. Eu perdi minha alma? Quando eu perdi o controle?”. Quando Mark diz “Mas eles me dizem para focar no jogo, Mark. Deus sabe que estou tentando e eu nunca saio do chuveiro para que eles não me vejam chorando” representa o resultado da masculinidade tóxica de que homem não deve chorar e que deve esconder o que está sentindo para parecer “durão” e “machão”. Então Jose diz que Mark é “apenas um garotinho assustado no corpo de um gigante”, o que diz respeito a cultura de tratar homens como meninos, ‘moleques’ e usando desse argumento para amenizar ou desculpar determinados comportamentos negativos, indo na contra mão da criação das meninas que são frequentemente adultizadas desde cedo. Eles terminam o especial vencendo a temporada, como de fato aconteceu com os verdadeiros Jose Canseco e Mark McGwire em 1989.

Para encerrar o poema visual, eles explicam o cumprimento característico dos irmãos bash (bater os antebraços) e voltam a se gabar de quem são e de sua imagem como os campeões. Um adendo para a parte genial dessa música de formar frases usando os nomes dos times de beisebol da liga americana. Conforme a matéria da Rolling Stone disse na época em que o especial foi lançado, os personagens começam como “os idiotas festejantes e terminam como vítimas do próprio estrelato”. O tom melancólico do final acentua a piada ao parodiar o comportamento masculino e os efeitos da masculinidade tóxica para justificar atitudes, no mínimo, ridículas e com certeza destrutivas.

Bash Brothers é absurdo, inteligentemente engraçado e, segundo Akiva Schaffer: “a piada final é que a coisa toda existe”. O verdadeiro Jose Canseco comentou o especial no twitter. Ele disse: “Acabei de assistir o The Unauthorized Bash Brothers! Não consigo parar de rir. Amei”. Canseco ainda participou ao lado de The Lonely Island em alguns shows quando eles apresentaram as músicas “Jose and Mark” e “Uniform On”.

Você pode asssitir ao poema visual na Netflix e ouvir o álbum que está disponível nas plataformas digitais.

Pensando por aí

Um site sobre ciência, cultura pop, sociedade e qualquer outro pensamento que passar pela cabeça dos nossos vários autores independentes

Bash Brothers: como The Lonely Island usou o esporte para ridicularizar os estereótipos de masculinidade Bash Brothers: como The Lonely Island usou o esporte para ridicularizar os estereótipos de masculinidade Reviewed by Pensando por aí on maio 23, 2020 Rating: 5

Nenhum comentário:

Tecnologia do Blogger.