O BBB 20 e o lugar do branco diante do racismo




Numa terça-feira, há duas semanas, na casa mais vigiada do Brasil, o Twitter completava três dias de uma guerra virtual entre torcidas que visavam eliminar um dos emparedados, sendo eles Felipe Prior (indicado pela líder), Manu Gavassi (escolha de Felipe) e Mari Gonzalez (escolha da casa). 

Quem acabou sendo eliminado com 56,73% dos votos foi Felipe Prior. Contudo, não estamos aqui hoje para falar sobre a eliminação em si, mas sobre a conveniência de utilizar de questões sociais e políticas só quando convém, e como não foi legal da parte de todas as torcidas se utilizar disso (embora houvessem alguns pontos corretos no meio disso tudo).

De um lado, a torcida a favor de Manu Gavassi (ou a favor da eliminação de Felipe Prior), do outro, a torcida a favor de Felipe Prior (ou a favor da eliminação de Manu). Mari ficou com somente 0,76% nesse paredão, então por enquanto vamos ignorar a participação dela e focar no fator de que ambos os times pontuaram questões que pesaram muito para o montante de votos histórico - pouco mais de um bilhão e meio votos:

Prior, um homem cis e branco, que já havia tido falas racistas e já havia feito parte do plano de um ex-participante visando desestabilizar as meninas da casa (em especial as famosas que tinham seus parceiros aqui fora, como Bianca e Mari), riu também da frase de Lucas, cujo havia dito que "não havia comido Mari porque não estava com fome", além de ter feito piadas gordofóbicas e com zoofilia. Já Manu, uma mulher cis e branca, que já havia dito anteriormente que "Daniel agia na inocência, mas Babu não", contribuindo para a imagem de Babu como o monstro que a participante Ivy comumente dissemina, e tendo também dito anteriormente que "Daniel e Marcela combinavam devido as suas cores", além de sua constantemente pautada soberba (algo também conversado entre os participantes junto dela).

Obviamente a discussão tomou um forte viés político (porque, deixemos claro: entretenimento também é político) dado os acontecimentos previamente citados - e outros -, acabando por escalar de tal maneira que, no fim, não serviu para nada, pois todos estavam ocupados em passar pano para o racismo de seus favoritos, enquanto apontavam o do adversário. 

Só que tem uma coisinha que todo mundo esqueceu: apontar racismo não deveria ser seletivo por ódio a determinadas pessoas. Dá para, assim como foram, os dois serem racistas (assim como todos os outros brancos da casa).

Racismo, diferentemente do que nos acostumamos a ver, não se manifesta só em forma de agressão física ou morte, mas com ações e falas camufladas que para pessoas não-racializadas podem ser facilmente imperceptíveis - justamente porque não nos afeta diretamente. É fácil para nós, brancos, esquecermos de tudo que foi dito e atuado contra essas pessoas por crescermos em uma sociedade que nos fornece respeito e dignidade sem questionar o nosso merecimento de tais direitos. 

E até mesmo entender que independentemente se fosse "só uma frase ou só um acontecimento" não seria menos preocupante ou ofensivo ainda leva muita pancada para entrar na nossa cabeça. E tudo bem, já que é uma realidade da qual a gente não tem (geralmente) a menor familiaridade, mas o problema é querer questionar essas pessoas com o propósito de desacreditar elas que explanam sobre suas vivências, buscando justificar e amenizar o racismo que, desconfortavelmente, acabamos por nos ver reproduzir constantemente.

Aí que entra os acontecimentos que vão parar nos assuntos mais comentados do Twitter em que diversas pessoas brancas, ao invés de tentarem só escutar, defendem seus ídolos com coisas como "olha esse vídeo onde ela fala sobre o racismo institucional", "olha como ele é amigo desse homem negro por sempre estar ao lado dele e o defender", "olha como ele chorou com o racismo de outra pessoa" e "ah, ela falou que ele faz por mal porque não conhece ele, né?" em prol de justificar que eles não são racistas. O que, além de dificultar uma discussão sobre os efeitos desses atos sorrateiros, acaba por construir permissões para que pessoas sigam sendo racistas e não aprendam nada. 

Pelo simples fator de pessoas brancas se recusarem a escutar os ativistas de movimentos sociais que abordam de maneira inegavelmente clara os ocorridos racistas, é passada uma noção errônea de que racismo estrutural é diferente de ser racista, o que não é verdade e serve só, além de banalizar algo muito sério, para confundir não só outras pessoas racializadas que ainda estejam começando a compreender o racismo que sofrem - consequentemente levando-as a normalizar e aceitar determinados padrões -, como também pessoas brancas que estão buscando (ou que poderiam eventualmente cruzar com o) entendimento.

Racismo Estrutural é sobre estruturas de poder e dominação, que comumente se manifestam em instituições e constituições (além de outras formas de poder, e também é muito mais complexo do que essa descrição que está sendo dada de maneira praticamente leiga), reforçando a ideia da supremacia e superioridade branca. Pessoas brancas se beneficiam dessa estrutura e são constantemente educadas de acordo com ela, portanto não somente reproduzem racismo, mas são racistas, como explica a usuária @florababylon no Twitter.

Mas o meu, o seu, o nosso lugar diante o racismo enquanto pessoas brancas não é o de proteger racistas e zelar nossa culpa mais do que o bem comum. Não deveria ser, pelo menos. Porque algo importante de se questionar é: por que ser chamado de racista te ofende mais do que reconhecer que foi de fato racista e que foi esse racismo que feriu alguém?

Como o ex-BBB Rodrigo França já pontuou em seu Twitter (especificamente sobre Racismo Recreativo, mas que também se aplica de modo geral): é racista quem falou, quem riu e quem ficou em silêncio, em conivência. E não pode ser passado, precisa ser pontuado e corrigido.

Então, se ainda não ficou claro: o nosso lugar, enquanto brancos, é usar o nosso privilégio para não só ser contra racismo, mas ser anti-racismo e dar espaço para quem puder falar que estamos errados falar, e claro, a gente escutar. Pontuar falas, ações e posicionamentos racistas, independentemente de se a quem nos dirigirmos é uma pessoa que seja mais suscetível a buscar compreender e mudar e pedir desculpas pelo seu preconceito (o que é muito bom e mostra justamente o tipo de pessoa que eventualmente fortalecerá essa luta) ou alguém menos suscetível a tal, também faz parte do nosso papel. É esse justamente o segredo: não deixar passar.


Outros ativistas que vale a pena conferir: @natalyneri (também tem canal no YouTube), @andrezadelgado, @musaraujo (canal no YouTube chama-se Muro Pequeno). Qualquer outra dica é muito bem-vinda nos comentários.

Jota Albuquerque

Jota é mais um jovem adulto vagando pela vida sem a menor ideia do que está fazendo (ou acontecendo). Tradutor Intérprete em formação, também pensa em se meter com Ciências Políticas e/ou Cinema. Um ser necessitado de paciência e autopreservação, ele é também um paulistano romântico viciado em pesquisas. Se tiver dúvidas de onde encontra-lo, é só seguir as trilhas de discussões políticas que há por aí.

O BBB 20 e o lugar do branco diante do racismo O BBB 20 e o lugar do branco diante do racismo Reviewed by Jota Albuquerque on abril 08, 2020 Rating: 5

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