J.K. Rowling, a ''novidade'' transfóbica e Harry Potter

Foto: Divulgação

No dia 19 desse mês, a autora J.K. Rowling, mundialmente conhecida pela saga de livros Harry Potter, se envolveu em mais uma grande polêmica declarando o seu posicionamento a favor de uma mulher abertamente transfóbica, que utilizava do Twitter para disseminar palavras de cunho preconceituoso contra pessoas trans e não-binárias. Se continuar, esteja ciente dos possíveis gatilhos.

Explicando o caso: Maya Forstater não teve o seu contrato com a organização sem fundos lucrativos que visa combater a desigualdade renovado após falas ofensivas e excludentes em seu Twitter. O juiz do caso, após essa senhora entrar na justiça alegando censura, concluiu que "pela totalidade de evidências, [...] ela consideraria apropriado, mesmo que violasse a dignidade e/ou criasse um ambiente intimidador, hostil, degradante, humilhante ou ofensivo chamar alguém pelo sexo que ela acredite ser apropriado". 

Em resposta, Forstater disse que encontrava dificuldade em expressar seu choque e descrença ao ler o julgamento, o qual achava que seria compartilhado pela maioria daqueles que são familiares com seu caso, completando com: "minha crença é que sexo é um fato biológico, e é imutável. Há dois sexos, masculino e feminino, Homens e garotos são do sexo masculino. Mulheres e meninas são do sexo feminino. É impossível mudar de sexo. Esses são fatos recentemente entendidos como básicos fatos da vida por quase todo o mundo. Esse julgamento remove o direito das mulheres e seus dinheiros de liberdade de crença e expressão. Isso oferece licença judicial para mulheres e homens que falam sobre a verdade objetiva com claro debate serem sujeitos à agressão, bullying e punição econômica", deixando claro que irá tentar recorrer. [The Guardian]

Importante ressaltar, claro, que não só Maya Forstater está errada em relação a comparar gênero e sexo como se sexo fosse um fator determinante para o gênero de uma pessoa, como também está errada em afirmar na existência de somente dois sexos. Além de que, liberdade de expressão possui consequências, não é porque você pode falar o que bem entende, que pode sair ileso ao se expressar. Está em ambas as constituições, tanto brasileira como britânica, em vigência democrática, o direito de expressão, mas está também os diversos tópicos com seus parágrafos sobre calúnia, pronúncias vexatórias e atitudes antidemocráticas.

Já sobre J.K. Rowling, não é a primeira vez que a escritora deixa escapar seus pensamentos de que pessoas trans e não-binárias não são dos gêneros que são, por isso o "novidade" entre aspas no título da matéria. Anteriormente já havia curtido tweets com mensagens transfóbicas, alegando mais tarde que havia sido somente um erro ("já que ela era uma senhora usando a rede social"), e nessa mesma época seguia um dos maiores perfis transfóbicos do exterior [fonte].

Dessa vez, entretanto, foi mais escrachado, sem desculpas e com frases de falso apoio à comunidade LGBTQ. 

"Se vista como desejar, se chame de como quiser, durma com qualquer adulto que consinta e lhe queira, viva sua melhor vida em paz e segurança. Mas forçar mulheres para fora de seus empregos por constatar que sexo é real? #EuApoioMaya"

É possível notar que o tom dela é um tom de falsa compreensão e apoio, igual a famosa frase "você beija quem quiser, mas beija entre quatro paredes". 

Ela está, pode-se perceber que de propósito, tratando pessoas trans como adultos que gostam de brincar de se vestir e chamar do que "querem", não que são pessoas sendo quem são. Implicando que pessoas trans são a roupa que vestem e com quem dormem, ela está tomando uma questão importante e diminuindo-a até eximir-se da culpa, tratando tudo somente por aparências e rótulos enquanto ainda dissemina informações erradas que, consequentemente, são extremamente prejudiciais para toda a comunidade LGBTQ.

J.K. está defendendo uma mulher que ativamente impede essa comunidade de "viver sua melhor vida em paz e segurança" que ela mesma citou, e infelizmente, para uma pessoa como Rowling, que não enxerga - justamente por não o querer - os problemas que tal posicionamento vindo de uma pessoa com tanto impacto como ela pode agravar num mundo como o nosso, onde nem tudo ficou lindo e perfeito após o Nazismo como no final da série de livros Harry Potter depois da derrota de Você-Sabe-Quem (Voldemort), a situação é só mais uma que logo vai ser jogada para baixo do tapete porque ainda tem quem a defenda.

Numa posição de vida como a qual ela se encontra, uma mulher cis (que se identifica com o gênero designado ao nascer) e branca, hoje sendo milionária, é muito fácil se confortar nos privilégios que a vida dela pode oferecer e continuar falando somente sobre questões que ela chegou a conhecer enquanto uma mulher que precisava trabalhar para sustentar os filhos depois que o marido se foi, que também não são questões frívolas, mas não são mais ou menos importantes que questões de gênero e LGBTQ em geral, com todos os recortes que podem ter, seja envolvendo peso, idade, etnia, ou outros.

Ela tem o privilégio de discordar das pessoas, bloquear estas no Twitter, e seguir a vida dela sem peso na consciência enquanto os seus discursos e apoios a determinadas pessoas reforçam um sistema de opressão contra pessoas que fogem da comumente tida normalidade, dificultando mais ainda o progresso e a justiça de fazer o seu trabalho corretamente. 

E é essa discussão que a gente precisa ter, não se Harry Potter deve ser cancelado ou não, como alguns cantos da internet vem falando.

Porque é inevitável, Harry Potter faz parte da Cultura Pop, Harry Potter é Cultura Pop, está em tudo que consumimos. Por isso, de uma maneira ou de outra, mais pessoas serão induzidas a conhecer este mundo. E isso é ótimo, porque é um fato: J.K. Rowling construiu um mundo fantástico, em ambos os sentidos da palavra, e isso deve ser apreciado. Cultura deve ser apreciada, não cancelada.

Você pode ser fã da história ao mesmo tempo que reconhece e critica buscando educar as pessoas sobre as atitudes errôneas e/ou preconceituosas daqueles que escreveram ela ou sobre acontecimentos de dentro da mesma. É uma atitude super encorajada e é o melhor meio de se levar um debate adiante, de maneira que possa ocorrer um efeito de verdade na sociedade como um todo.

Porque é como já dizia Jameela Jamil: pessoas cis, brancas e ricas não são canceláveis.

Jota Albuquerque

Jota é mais um jovem adulto vagando pela vida sem a menor ideia do que está fazendo (ou acontecendo). Tradutor Intérprete em formação, também pensa em se meter com Ciências Políticas e/ou Cinema. Um ser necessitado de paciência e autopreservação, ele é também um paulistano romântico viciado em pesquisas. Se tiver dúvidas de onde encontra-lo, é só seguir as trilhas de discussões políticas que há por aí.

J.K. Rowling, a ''novidade'' transfóbica e Harry Potter J.K. Rowling, a ''novidade'' transfóbica e Harry Potter Reviewed by Jota Albuquerque on dezembro 22, 2019 Rating: 5

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