She-Ra e as Princesas do Poder: o perigo do colonizador construir a narrativa


Antes de começarmos, que fique registrado que o texto estará lotado de spoilers da quarta temporada de She-Ra e as Princesas do Poder, a série animada da Netflix com parceria da DreamWorks Animation. Aviso dado, continue por sua conta e risco.


Nessa quarta temporada temos uma novidade surpreendente para alguns, mas que já vinha sendo teorizada pelo fandom de She-Ra há algum tempo: os First Ones, ou Primeiros (em português), não são os grandes heróis que as princesas acreditavam que eles eram. Na verdade, são seres gananciosos em busca de mais poder e de um controle universal com o que consideram ser o certo. Eles manipularam Mara, a She-Ra anterior, e quando essa descobriu a verdade por detrás de seus planos - que não eram tão benevolentes como a fizeram crer -, a desmoralizaram, deixaram-na marcada como "A Louca", uma pessoa digna de pena e vilã de uma história na qual, na verdade, era só mais uma marionete. Se isso não te lembra nada das suas aulas de História, então vamos por partes desempacotar aos poucos.

Os First Ones chegaram em Etherea (ou Etérea), e apesar de já haver ali um povo nativo, nascido e criado no planeta, essa nova população tida como "mais avançada" e poderosa, se alojou e entitulou-se como a primeira nação a chegar àquelas terras. Ali estudaram o local com um objetivo em mente, buscando algo em específico (nesse caso, a magia de Etherea). Agindo como salvadores, pessoas gentis que tinham muito a oferecer e compartilhar, eles pegaram tudo o que não tinham o direito de pegar, sem jamais devolver algo, trocar por alguma coisa. Não bastasse isso, enterraram seus podres e apagaram aqueles que se meteram em seu caminho, assim livrando-o para construir uma história onde fossem os Bonzinhos.

Inglaterra, França, Holanda, Bélgica, Espanha e Portugal são exemplos de países que fizeram o mesmo. Colonizaram, saqueando e destruindo culturas e civilizações inteiras ao redor do mundo, para no fim construírem uma narrativa onde são os heróis, os grandes salvadores das mesmas nações que ousaram aterrorizar. Não à toa, hoje em dia, a nossa história brasileira pré-portugueses é quase inexistente nos livros didáticos de História.

Aprendemos sobre a colonização que acontece depois de 1500, sobre a colônia que o Brasil por muito tempo foi, sobre o Tratado de Tordesilhas, sobre qualquer detalhe histórico de Portugal e até mesmo sobre a monarquia de lá e seus lacaios, mas não sobre a nossa cultura indígena, sobre as mais de 150 aldeias aniquiladas, sobre as mais de 4000 línguas perdidas, sobre a nossa Mitologia Brasileira... Não sabemos nada, só o que querem que saibamos, o que julgam ser "importante" de sabermos. E é aí que mora o perigo.

Esse precedente de "grau de importância" com história não é bom porque oferece liberdade das pessoas dispensarem verdades, apagando-as como se não fossem nada, ditando uma única e suprema verídica, o que acaba por desumanizar civilizações no julgamento de que, por serem - supostamente - menos cultas e cheias de histórias, possuem menos valor (África tá aí que não nos deixa mentir). É por esse mesmo precedente que, hoje, a nossa cultura é eurocentrista. Acreditamos, fielmente, que o continente europeu e seus países são o elemento fundamental na constituição da sociedade moderna e tudo que nos torna humanos, o que não é verdade.

Esse é um ponto muito importante nessa temporada porque quando Adora descobre a verdade, dói. E dói justamente por saber que eles, que são ligados a ela, não são os heróis que ela esperava que fossem, sabendo como destroçaram Mara, dos planos que tinham para o planeta onde ela cresceu, o reconhecimento de um destino fadado às mesmas agressões que eles cometeram, se vendo como eles viam a She-Ra: um descartável sem valor servindo de meio para um fim. Como Inglaterra, Espanha, Portugal e muitos outros fizeram, Os Primeiros queriam drenar tudo que Etérea tinha a oferecer e depois, usar para si sem se preocupar com reparação alguma, deixando os cacos para os outros limparem.

Adora se vê como uma igual, reflexo deles pela sua ligação direta sempre reforçada por todos, mas ela não é dali; Os Primeiros não são o elemento fundamental na constituição de tudo e todos que formam Etéria; e, especialmente, Adora não é Eles, ela é ela, e o seu destino é seu. Ela pode mudar as coisas. Ela entende que o conhecimento pode amedrontar como qualquer território inexplorado ao mesmo tempo que lhe reerguer, foi o que ela veio fazendo nessas quatro temporadas.

É esse reconhecimento que Adora faz ao quebrar a espada, se libertando das amarras remanescentes de seu passado com Os Primeiros, quebrando assim o ciclo da narrativa pelo colonizador, assumindo-a como colonizada, como alguém ciente de sua história: a nossa ancestralidade e tudo que com ela vem é essencial, é uma parte de nós que merece ser conhecida para que assim possamos gerar mudança.

Jota Albuquerque

Jota é mais um jovem adulto vagando pela vida sem a menor ideia do que está fazendo (ou acontecendo). Tradutor Intérprete em formação, também pensa em se meter com Ciências Políticas e/ou Cinema. Um ser necessitado de paciência e autopreservação, ele é também um paulistano romântico viciado em pesquisas. Se tiver dúvidas de onde encontra-lo, é só seguir as trilhas de discussões políticas que há por aí.

She-Ra e as Princesas do Poder: o perigo do colonizador construir a narrativa She-Ra e as Princesas do Poder: o perigo do colonizador construir a narrativa Reviewed by Jota Albuquerque on novembro 16, 2019 Rating: 5

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