DeanCas: uma análise sobre a falácia que relacionamento tóxico se tornou

Imagem-base da edição: PRINCEACKLES

Relações humanas se dão vivendo no conflito. Crescemos e aprendemos através de erros que poderão custar tudo. Em resumo, crescemos sendo humanos. E algo que, aparentemente, as gerações Y e Z esqueceram é justamente isso: somos seres humanos e seres humanos são falhos. Ninguém é perfeito e todos vão errar, sem exceções, e, consequentemente, vão aprender com seus erros. São essas coisas que nos tornam humanos.

É essa a percepção que falta no fandom do mundo inteiro de Supernatural, seja quem shippa Dean e Castiel juntos ou não (o que não cabe discutir, já que a construção dos dois, especialmente nesses três primeiros episódios da décima quinta - e última - temporada é romântica, a de duas pessoas apaixonadas com seus altos e baixos), a acusação de que Dean Winchester é um indivíduo tóxico para com o melhor amigo é, no mínimo, sem noção da gravidade e realidade do que de fato é alguém tóxico. Ele é, sim, um imbecil, um idiota magoado, mas não tóxico.

Só que - e é de suma relevância lembrar disso - relações são choques de imperfeições. Compreender uma pessoa totalmente enquanto lida com os incômodos e faltas de diálogos que isso acarretarão, bem como descontos de frustrações, não é algo fácil e não existe um guia de como atingir essa facilidade e ser perfeito. Se humanos não são perfeitos, as relações que esses seres constroem tampouco o serão. E não são as imperfeições que tornam uma relação tóxica.

Precisamos urgentemente sair do campo das ideias e avaliar as práticas porque hoje, e isso é um problema real da nossa geração, trabalhamos mais com as teorias. É tudo sobre "como deveria ser", quando o "deveria ser" muitas vezes é impraticável e mentiroso; humanos são falhos, e falhas não são tóxicas, na verdade, são com elas que nos tornamos melhores.

O Castiel (mesmo com as questões de autoestima e depressão, que é interessante traçar a cronologia e motivos, que começam com Chuck [como sempre]), ele nunca deixou de ser quem é por alguém, ele não é submisso, ele não é alguém domável. Nunca foi, nunca vai ser. E todos esses anos, depois de tropeções, guerras e erros, ele só melhorou, se tornou mais humano e compreensivo, cresceu e se reconheceu como a sua própria pessoa. Independente, revolucionário e além.

É, sim, muito importante o questionamento sobre o que são relações tóxicas e/ou abusivas, principalmente quando giram ao redor de personagens que amamos porque muitas vezes fechamos os nossos olhos só por amarmos aquele casal ou personagem. Entretanto, ainda mais importante, é reconhecer que esses personagens - assim como nós mesmos - podem cometer atitudes negativas, mas que essas atitudes não os tornam necessariamente tóxicos. Existem coisas que podem ser evitadas, mas ferir o coração dos outros e deixar o nosso melhor de lado, nem sempre vai ser uma delas.

Relacionamentos tóxicos são muito mais do que a superficialidade com a qual tratam e jogam o assunto pelo Twitter e demasiadas redes sociais demonstram ser. Não é qualquer discussão, discordância ou briga, não é qualquer coisa. Uma relação tóxica - seja ela em namoro, amizade ou outros - abala o senso de identidade de alguém, criando dependência e paranoias. É ruim, não é qualquer magoar de emoções.

Porém, que Dean é um imbecil é um fato. Mas ele é só mais um adulto que não teve como desenvolver as suas emoções da maneira mais saudável possível no suposto tempo certo. Não à toa, ele é alguém que diante de luto e experiências ou sentimentos que considera negativos, ele desconta na comida (e nas pessoas). Seja pelo meio onde ele cresceu, em que aprendeu que o modelo correto de masculinidade é a qual chamamos hoje de tóxica e que, por isso, o bloqueio emocional é o jeito correto de lidar com os seus sentimentos como um homem, ou pelo pai abusivo que tinha, ele só está fazendo isso - aprendendo a lidar consigo mesmo - agora, só que isso é conflitante com toda a sua bagagem de mais de 30 anos.

Levaram muitas temporadas para que as coisas fossem resolvidas no diálogo e não nos socos, e o processo de abertura às palavras do Winchester mais velho ocorre com a chegada de seu Anjo da Guarda, o Anjo do Senhor que se apaixonou pela humanidade, e que, desde então, tudo se resumiu em salvar um único humano, Dean Winchester, como pontuado por Metatron no episódio 23 da nona temporada.

É Castiel o grande influenciador dessa revolução interna de Dean Winchester e ela pode ser notada na décima segunda temporada, quando Castiel mata a ceifadora Billy. Os dois se desentendem diversas vezes porque a morte da ceifadora estava destinada a "uma consequência cósmica" e, quando consegue se explicar, Dean diz que não está bravo - ele é grato pelo o que o anjo fez -, mas está preocupado:


Não só nesse episódio em específico, mas nessa mesma temporada e em diversas outras que se seguem temos diversos momentos em que Dean se abre e dialoga. Um desses exemplos, além de quando é revelado ao telespectador que Dean e Cas passam noites acordados juntos vendo filmes de cowboys e que Cas é a grande vitória de Dean, é a cena da mixtape (que não só é uma representação de um trope extremamente usado em quesito romântico - explanando como se sente através de música, como seu pai fez para sua mãe e é pontuado em diversas temporadas que tantos outros também fizeram para seus respectivos amores -, mas também é), onde mostra um de seus estágios em se abrir, o que os leva a uma conversa sobre os recentes acontecimentos:

"Desculpe, Dean. Só queria lhe devolver isso."

Imagens: Misha's Minion

"É um presente. Você fica com isso."

"Cas. Você não pode-- com tudo que está acontecendo, você não pode desaparecer assim."

"Nós não sabíamos o que havia acontecido. Nós estávamos preocupados, e isso não é okay."

"Eu não queria te preocupar."

"Dean, eu só continuo falhando, de novo e de novo. Quando você foi levado, eu procurei por meses e não consegui te achar."

"E eu só queria--Eu precisava voltar para cá com uma vitória para você e por mim mesmo."

"Nós vamos achar uma maneira melhor."

C: "Você quer dizer, nós?"
D: "Sim, besta, nós."

Isso porque não estamos nem falando de toda a série, mas períodos específicos que ligam com o atual momento da relação deles. O ponto é que Dean está fora de si, afundado em culpa pelo modo que agiu com Jack - consequentemente se sentindo péssimo por isso ter feito Cas se virar contra ele -, confuso de seus sentimentos e vivências por saber que Deus é a grande mão que brinca com eles como marionetes e magoado com Cas por não ter ficado do seu lado e por o culpar de algo que Dean reconhece também ter culpa, é óbvio que ele vai descontar nele e se afastar. 

Como ninguém entende como ele se sente, ele quer que as pessoas possam entender, nem que seja uma vírgula dessa dor; ele quer que a pessoa com quem ele está magoado e brigado, mas também tenha sempre amado, possa o entender. Essa é uma das atitudes mais humanas possíveis, ele não quer o mal para o melhor amigo, ele quer ser entendido, ele quer que Castiel dê o espaço para ele, mas ele não quer que o melhor amigo vá embora, só quer que ele o entenda.

Ele está desesperado e isso fica claro no segundo episódio dessa última temporada, quando os dois conversam e Dean assume a raiva que está sentindo de Deus, perguntando se Cas também não está, o que faz o moreno se pronunciar sobre o que acha de toda essa situação, sobre a realidade ou falsidade de tudo que viveram. Afirmando que está, sim, com raiva de Chuck, faz questão de deixar claro que não acredita que tudo que viveram não tenha sido real:

"Dean, você perguntou 'o que disso tudo é real?'... Nós somos." [Imagem: SoWriterLand]

Isso tudo é para lembrar que existe uma diferença no modo deles de agir quando são manipulados/sofrem lavagem cerebral (que são momentos mais usados para justificar uma suposta relação tóxica e abusiva entre os dois) e quando estão chateados, confusos e sendo simplesmente pessoas.

Dean sabe que está errado e Castiel também sabe que o Winchester está errado, não por nada ele diz, no final do terceiro episódio que "não há mais nada a ser dito, está na hora de seguir em frente" e se vai. E logo em seguida, o episódio é finalizado com Dean abaixando a cabeça, os olhos cheios de dor, consciente de seus erros e ainda surpreso pela decisão do outro.

Nesse momento, Dean só não sabe conversar sem deixar toda a sua raiva sair e o controlar. Ele está agindo da mesma maneira que agiu no início da décima terceira temporada, quando tinha perdido o Castiel devido a "consequência cósmica" da morte de Billy, quando atacou o Sam (e Jack) com todo o seu ódio e desespero do luto, num contraste paralelo sobre a diferença de luto familiar e romântico.

Por isso, o "por que parece que o errado é sempre com você?", quando Dean desconta em Cas utilizando de pavio a mudança repentina de plano após a falha do mesmo, não é porque ele acredita nisso (ele deu provas e mais provas durante as temporadas de o contrário), mas é porque é com Cas que tudo mudou.

É com Cas que os destinos deles mudaram. É o Cas a constante que vai contra as vontades de Deus. Castiel é a sua salvação da perdição, mas também a sua condenação à danação nesse cenário onde ele não sabe se o que viveu e sente é sua obra ou das linhas que Deus usa para segurá-los como os bonecos que foram designados para ser nesse grande emaranhado de universos de Chuck.

Enquanto um está com a fé abalada, outro sempre a teve. Em razão disso, a notícia de que no nono episódio Dean rezará para o anjo pedindo desculpas e contando porque agiu da maneira que agiu e como se sente é extremamente necessária para, não só os personagens, mas a narrativa. Relembrará Dean que ele não precisa ter fé em Deus, que a sua fé nunca foi Nele, mas em Castiel. Ele só precisa ter fé em Cas e nele mesmo, neles dois.

"Cas? Cas. Ei, Cas?" | "Você quer dizer que vai jogar nossos amigos dentro de um moedor de carne? Cas também?"

S: Cara, você por acaso se moveu desde a noite passada? D: Dormir é o novo fumar. | "E Cas?"

"Algo está estranho com o Cas, também" | "Nós não vamos mandar Lucifer para uma batalhar dentro do Cas. E se ele não conseguir se safar?"


S: O que? Por que você parece tão preocupado? D: Vamos ver. Tem o Cas, que eu mandei arrastar o rabo para cá. Isso foi há dias, ele ainda não tá aqui. | "E você--Cas, onde você está?"

"Agora, eu tô implorando para você-- uma vez na vida, cuide de si mesmo."

C: Morrer seria um problema meu. D: Bem, não é como eu vejo isso. | "Cas, você tá bem?"

"Uou, 'pera. Você vai lutar com cinco anjos?" | C: Dean, eu estou indo. D: Cas, não, você não está com força suficiente.

"Vamô, vamô, vamô... É, ele não está atendendo." | "Cas? Ei, você tá legal?"

"Envolvido em quê, Cas? Se Matar?" | "*continuamente ligando pro Cas mesmo que ele não atenda* Vamô lá, Cas" [Imagens: Lesbian Lenas]

Foram tantas coisas vividas nesses 12 anos juntos que só mostram como a relação deles é pura de verdade. E pura no melhor sentido possível, não é perfeita porque eles não são perfeitos. Os dois cometeram falhas, já se traíram, estiveram de lados opostos, mas foi com a ajuda um do outro que eles cresceram, abraçaram a si mesmos e aprenderam a se entender - quando mais ninguém o consegue e mesmo quando um acha que o outro não entende (mas tanto entendem-se, que é Castiel quem começa a conversa do 15x03). 

É incrível ver que, mesmo com as falhas de roteiro e escrita, tudo ainda fica conectado e fica... certo? Porque é isso que eles são um para o outro: eles são certezas mesmo na incerteza. Não poderia haver melhor foco para finalizar a série como o de um relacionamento de dois personagens como Dean e Cas, um plot comparativo a separação ou divórcio que está nos levando para um caminho interessante para a história e, possivelmente, revolucionário para todas as áreas de criação, além de Supernatural.


Jota Albuquerque

Jota é mais um jovem adulto vagando pela vida sem a menor ideia do que está fazendo (ou acontecendo). Tradutor Intérprete em formação, também pensa em se meter com Ciências Políticas e/ou Cinema. Um ser necessitado de paciência e autopreservação, ele é também um paulistano romântico viciado em pesquisas. Se tiver dúvidas de onde encontra-lo, é só seguir as trilhas de discussões políticas que há por aí.

DeanCas: uma análise sobre a falácia que relacionamento tóxico se tornou DeanCas: uma análise sobre a falácia que relacionamento tóxico se tornou Reviewed by Jota Albuquerque on novembro 23, 2019 Rating: 5

Um comentário:

  1. Não acho que seja um relacionamento tóxico, como você disse as pessoas erram. E mesmo o Cas, que é um anjo, tem um lado humano muito forte, sendo assim, não é perfeito. Mas acho que a melhor coisa que o Cas fez nesse 15x03 foi ir embora. Acho que ele aguentou até tempo demais ao lado de alguém que se comporta como o Dean se comporta o tempo todo. Deve ser difícil viver um relacionamento (seja amoroso ou de amizade) com alguém que está sempre com raiva, sempre descontando os problemas nele. O Dean realmente precisava ser entendido, como você disse, mas o Cas também precisava disso. Ele tinha perdido o Jack e ele não teve nenhum tipo de conforto, apenas patada. Ambos estavam sofrendo, mas diferente do Cas, o Dean não fez nada pra estar perto dele. Então não me admira o Cas ter ido embora, qualquer pessoa com um pouco de amor próprio teria ido. E sim, o olhar do Dean foi de surpresa e eu cheguei a achar por um segundo que ele pediria pro Cas não ir, mas ele não fez. Então acho que os dois precisavam ficar longe um do outro por um tempo. E quando se uniram de novo, foi revigorante, eles precisavam disso. O que eu quero? Que eles fiquem juntos como casal no fim. Pois é. Mas sei que a possibilidade é quase zero. De qualquer forma, só espero que deem um final decente para Destiel.

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