Canto Criativo: Toda história é sobre resistência



Contar uma história é sobre quebrar o silêncio, desafiar as probabilidades e compartilhar a sua visão com o mundo, tanto que, se refletirmos ao ler sobre heróis, sobreviventes de guerras e outros, perceberemos esse padrão; nesse mundo opressivo em que vivemos, onde figuras políticas cada vez mais buscam por calar as suas populações juntamente de suas críticas e visões, é fácil de perceber como não existe história se não existir alguém se posicionando, se reafirmando e compartilhando. 

Até mesmo no que chamamos hoje de Pré-história - a época anterior à invenção da escrita, antes do registro concreto (datado) de acontecimentos - há história (milhares de histórias que hoje são reinventadas, reimaginadas e recontadas).  Infelizmente, não temos como perceber isso com o nosso dia a dia por passarmos a vida inteira nos acostumando a relativizar as dores do que vivemos, o que imediatamente afeta a nossa percepção sobre tudo o que consumimos, especialmente mídias que relatam histórias, sejam elas fictícias ou reais, sejam elas séries, filmes ou livros.

Quando se diz sobre se posicionar, não é sobre o fazer em prol político, pelo menos, não necessariamente. É precisamente sobre você e somente você no seu íntimo (o que pode, sim, ter um impacto político no mundo). 

Sua vida é composta de histórias. Sua vivência é a completude até esse momento da sua história, o que adquiriu de conhecimento é justamente parte do que você viveu; e tudo isso constituiu sua resistência. Até o presente momento, percorreu pelos dias mais tempestuosos, se levantou da cama e viveu mais um dia, e acredite, isso é muito. 

Somente por essas questões costumamos reduzir nossas dores, acreditar que somos menos do que verdadeiramente somos e deletar a importância, o nosso impacto, na vida dos outros. Nessa sequência de "ah, mas tanta gente sofre mais que eu" esquecemos que apesar disso, a gente também sofre, a gente também carrega cruzes pesadas todos os dias e merecemos contemplar essa dor que tanto nos incomoda em busca de algo que possa amenizá-la. Nós somos tão importantes quanto qualquer outra pessoa que pise nessa Terra.

Justamente por isso nos sentimos tão bem lendo o que gostamos, assistindo o que amamos, acompanhando quem somos fãs e encontrando pessoas com quem tão bem nos conectamos: porque nos identificamos, porque alguém está retratando o que vivemos, alguém também está passando pelas mesmas dores que nós sentimos. E nos sentir representados desde as grandes coisas até as pequenas é uma sensação libertadora de validez, de sorrir diante da sua própria existência, podendo enfim abraçar a si mesmo.

Tudo isso só porque aquelas histórias são o que você ainda não pôde fazer com completude: o padrão de três. Você ainda não pôde quebrar o seu silêncio, desafiar as suas probabilidades e compartilhar a sua visão com o mundo; o que as histórias que você acompanha fazem.

"Steven Universe, criado por Rebecca Sugar."
Seja aquela sobre o garoto gordo que perdeu a mãe - mas pôde contar com outras três (todas mulheres não-binárias) junto do pai - e precisa lidar com as as falhas da mãe que recaem sobre si enquanto é visto como incapaz de compreender tudo por "somente ser uma criança" [Steven Universe]; ou aquela em que a garota que tinha tudo perdeu seu posto de futura princesa e se tornou a grande vilã do final, mas ainda assim conseguiu a sua redenção [Descendentes 3]; até a que é sobre um deus penalizado que afetou a vida de diversas pessoas pelo bullying que praticou e que só agora, cerca de 4 mil anos depois, percebe e entende quais foram os impactos que suas ações causaram [As Provações de Apolo]; todas essas diferentes histórias compartilham desse padrão, dos protagonistas se levantando contra o senso-comum, desafiando o que lhes foi imposto e depois contando a sua história. Exatamente por essa questão que elas conversam com tantas pessoas diferentes com diferentes vivências, porque resistências similares às nossas nos atraem.

Logo, se tem uma nova percepção sobre a escrita, e com isso, sempre vai poder se lembrar que ela é tão ampla que vai além das regras, das dicas e noções que foram construídas ao longo de tudo que foi criado; um exemplo disso é a Jornada do Herói. Apesar de os 12 estágios serem importantes, hoje muitos contadores de história desafiam eles e chegam até a não aderir a Jornada em nenhum aspecto. Sempre é muito bom estudar tudo que possível para que, assim, você possa encontrar o seu caminho, o que melhor te agrada.

Histórias são complexas demais para existir um único modo possível de retratá-las, de contá-las. E por esses motivos, nunca "é só uma história", e nunca que isso vai chegar a ser uma ofensa. Não enquanto tudo for feito delas.

Jota Albuquerque

Jota é mais um jovem adulto vagando pela vida sem a menor ideia do que está fazendo (ou acontecendo). Tradutor Intérprete em formação, também pensa em se meter com Ciências Políticas e/ou Cinema. Um ser necessitado de paciência e autopreservação, ele é também um paulistano romântico viciado em pesquisas. Se tiver dúvidas de onde encontra-lo, é só seguir as trilhas de discussões políticas que há por aí.

Canto Criativo: Toda história é sobre resistência Canto Criativo: Toda história é sobre resistência Reviewed by Jota Albuquerque on novembro 07, 2019 Rating: 5

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