The Lonely Island: usando humor para rir dos machistas e homofóbicos

The Lonely Island: usando humor para rir dos machistas e homofóbicos

Se você assiste a série Brooklyn Nine-Nine, já conhece o detetive Jake Peralta, interpretado por Andy Samberg, e também conhece a forma como a série se preocupa em abordar temas importantes, com representatividade e consciência, sem perder o humor inteligente e sem ofender as minorias. Porém, quando você conhece as músicas do grupo que Andy faz parte, The Lonely Island, pode se chocar com a quantidade de palavrões e coisas absurdas em suas letras. Essa é uma primeira impressão comum; mantenha a calma e vamos te explicar o que ele quis dizer em suas músicas e clipes.

O grupo, formado por Akiva Schaffer, Jorma Taccone e Andy Samberg, faz raps falsos de comédia desde quando integravam o Saturday Night Live (programa de humor da NBC que está no ar há mais de 40 anos). Lançaram 5 álbuns e 2 filmes desde então.

É válido observar a maneira como o grupo representa os homens e a masculinidade em si nas suas músicas e videoclipes (uma vez que o seu público é, em grande parte, masculino) porque é dessa forma que eles fazem o que nós, mulheres, pedimos: que fiquem ao nosso lado sem protagonizar a nossa luta. Segundo Akiva Schaffer, rir de ser homem sempre foi a coisa deles, então eles parodiam de um jeito natural e absolutamente divertido ao brincar com homens machistas, inseguros e de masculinidade tóxica e frágil. Vamos olhar para algumas de suas músicas:

- Like a boss: Esta é a música que gerou o meme "Like a boss", que ficou famoso também no Brasil há alguns anos atrás. Mostra um chefe que se aproveita de sua posição de poder para assediar a funcionária. Mas a sua atitude não é aplaudida e ele é visto como o perdedor.



- We Like Sportz: Mostra como homens se consideram legais por serem homens e fazerem "coisas de homem", mostrando os estereótipos da masculinidade: homens gostam de esportes, usar armas, beber cerveja e criticar mulheres no esporte, como se aquele não fosse o espaço delas. Mas o tédio na voz dos personagens ridiculariza esses estereótipos.


- Jizz in My Pants: Talvez uma das mais famosas e polêmicas músicas do grupo, ela representa o homem que desconta a suas frustrações sexuais na mulher que está com ele, ao jogar a culpa nelas por "flertar demais" ou "tocar a bunda dele". Mas à medida que a música continua, fica claro que o problema é apenas com ele mesmo e que não é culpa da mulher.


- Dick in a box: Nessa música, os personagens oferecem seus pênis como presente para as namoradas. Aqui eles ilustram o homem machista e sexista que dá tanta importância ao próprio pênis, que acredita que a mulher PRECISA disso. É como a analogia de entregar o seu coração à alguém.


- I just had sex: A música brinca com o fato da vida do homem parecer girar em torno de sexo mas desconsiderando completamente o prazer feminino.


- Shy Ronnie: Aqui nós temos o tipo de homem que se sente intimidado por mulheres poderosas que tomam o controle e ele é a piada na música.


- The creep: Essa música ri de como os homens agem estranhamente para conseguir chamar a atenção de uma mulher.


 - Diaper money: Nessa música, o grupo brinca com o medo das responsabilidades de crescer e se tornar adulto, mas deixa uma mensagem clara de que coisa de homem é ter dinheiro para criar o seu filho e respeitar a sua esposa.


 - We need love: Os personagens de "we like sportz" voltam nessa música, com o mesmo tédio em suas vozes, agora para rir do homem que exalta suas próprias qualidades para conquistar uma mulher e que garante que vai respeitá-la, como se isso fosse algo incrível que ele até conseguiria fazer e que ela deve ser grata por isso.


No último trabalho de The Lonely Island, o poema visual "The Unauthorized Bash Brothers Experience" (disponível na Netflix), o grupo usou o cenário do esporte para ridicularizar a masculinidade tóxica mais uma vez. Como, por exemplo, na música "Oakland Nights" onde os personagens, jogadores de beisebol, tentam impressionar as mulheres com as coisas de luxo que possuem ou pela sua aparência física. Em "Bikini Babe Workout", eles vão para a academia para impressionar as mulheres e esperam que elas estejam usando roupas curtas e coladas para que eles possam olhar. Bash Brothers focou em mostrar e ridicularizar o lado frágil da masculinidade, que permeia que homem não chora, que terapia é para perdedores e como homens constumam mascarar as suas dores.


Conforme Akiva Schaffer disse em uma entrevista, "muitas de suas músicas estão tirando sarro de ser homem e por alguma razão, a coisa que os homens mais temem é a homossexualidade". Eles também tem uma série de músicas fazendo piadas sobre esse tipo de homem.

- No homo: Nessa música, para que os três amigos possam se elogiar sem parecer gay (o que seria um absurdo para eles) eles precisam dizer "no homo" ao final de cada frase. O que mostra como os homens parecem se vigiar o tempo todo em busca do menor sinal de homossexualidade. No final da música, ele se assume e se diz feliz em ser gay porém "no homo", o que representa a cultura homofóbica de que "não tem problema em ser gay desde que você não pareça gay".


 - Spring break anthem: A ideia é brincar sobre como apesar de toda a empolgação das festas universitárias na primavera (conhecido como spring break), eles secretamente anseiam por intimidade e querem um relacionamento. Na música, eles falam sobre encontrar o cara certo, se casar com ele e cuidar dos preparativos do casamento. A intenção não é rir da união homoafetiva mas normalizá-la. Se você colocar uma relação heteronormativa no lugar, a piada ainda está lá. Conforme Andy Samberg disse "se você acha que a piada é que aqueles caras se beijam, então você não entendeu. Não tem nada de engraçado no casamento gay". Quando perguntados sobre abordar o casamento gay, Akiva Schaffer disse "queríamos mostrar o quão ridículo é que o comportamento de spring break seja considerado normal enquanto o casamento gay é considerado insano, quando na verdade é o contrário.".

Andy Samberg completou: "essa música acabou tendo vários pontos. A original era sobre o quão aceitável o spring break se tornou e como é terrível para os jovens, especialmente as meninas, lidar com isso. Mas uma vez estávamos assistindo ao vídeo e ficou claro que havia uma outra camada que apontava como aqueles homens que tinham algum tipo de problema com o casamento gay, parece não ter problema nenhum sobre agir como animais no spring break.".


- Equal rights: Essa música foi inspirada na música "same love" do rapper Macklemore e nela, o rapper deixa claro que é hétero e faz uma reflexão sobre ser gay. Em "Equal Rights", o personagem Conner 4Real defende o direito ao casamento gay. No clipe, ele ostenta a bandeira LGBTQ+, celebra o casamento entre dois homens e aparece à frente de uma passeata. Mas nada disso é piada na música. A piada está no fato dele repetir constantemente ao longo da música que ele, Conner, não é gay. Ainda aparecem palavras que reforçam os estereótipos de homem cis hétero como forma de reafirmar a sexualidade de Conner. Mais uma vez, The Lonely Island brinca com o medo dos homens de serem confundidos com gays, mesmo quando estão apoiando a causa. É como "tudo bem você ser gay, MAS EU NÃO SOU. VOCÊ É".A homofobia pode estar nos detalhes e a música brinca com essa forma de apoiar o movimento querendo deixar claro que está de fora dele. No final, Conner diz que você não precisa chamá-lo de herói, o que diz respeito a artistas héteros que abraçam o tema para serem heróis da causa.


É interessante notar que o grupo, formado por três homens brancos e héteros, não quer levantar bandeiras e tomar o lugar das mulheres e da comunidade LGBTQ+, mas sim rir do comportamento masculino. Cientes de que não estão em seu lugar de fala, eles apenas riem do que a sociedade espera de ser homem cis e hétero.

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Sobre a autora
Julianna Simon é apaixonada por livros, games, séries e comédia boa. 


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The Lonely Island: usando humor para rir dos machistas e homofóbicos The Lonely Island: usando humor para rir dos machistas e homofóbicos Reviewed by Pensando por aí on outubro 01, 2019 Rating: 5

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