Sobre escrever uma protagonista assexual


Por que você não escreve a história da Juliana?

Foi mais ou menos assim que começou As Estrelas Sabem, porque uma amiga/leitora beta/maior incentivadora do meu trabalho enquanto autora, não me deixou arquivar a voz de Juliana numa parte da minha mente. Eu sabia que era uma história importante desde o momento em que essa personagem apareceu na segunda linha de Tudo Aquilo Que Não Sou, com seus conselhos sempre sensatos e um domínio curioso da língua portuguesa, mas não me sentia segura de falar sobre ela.

Juliana é especial, porque apesar da simplicidade da sua história, ela é uma personagem com camadas discretas e confusas. Ela não tem só uma característica, o que é ótimo, mas muita gente poderia enxergá-la assim. Ela é uma leitora assídua, mesmo com sua dislexia; ela faz piadas idiotas e comentários mais idiotas ainda, mesmo sendo introvertida; ela sonha com amor, mesmo fugindo de tudo que pode levar isso para o plano real. De um modo geral, Juliana foi uma construção paradoxal, e basicamente tudo o que eu precisava na época.

Eu estava passando por um momento muito delicado em minha vida, então a história delicada de Juliana e o modo como ela se aceitava no processo, foi tão importante para mim quanto dar voz a essa protagonista peculiar. Deixar que Juliana contasse sua história, com todas as suas referências da cultura pop dos anos 90 e seus suspiros clichês perdidos entre uma linha  e outra, foi como reencontrar minha própria história.

Mas não foi um processo fácil.

Escrever, para mim, é mais do que colocar palavras verdadeiras no papel. É colocar o dedo na ferida, tanto que eu sempre repito que só começo uma história se isso for tirar alguém da zona de conforto. Muitas vezes, esse alguém sou eu. Meus livros não são só um jeito que encontrei de transmitir o que vejo do mundo, mas também é um grito de frustração pelas coisas que não entendo e que acontecem mesmo assim. Então, por mais fofo e clichê que As Estrelas Sabem seja, também incomodou.

Incomodou porque, quando eu fui procurar referências de personagens assexuais, e encontrei tão poucas, eu tive vontade de gritar. Incomodou porque eu precisei escavar artigos em inglês, e mesmo assim poucos, porque quase não há informação em português. Incomodou porque conversando com outras pessoas, que se identificam dentro do espectro, eu esbarrei em preconceitos, dificuldades de se fazer entendido tanto quanto entender, mas, principalmente, me encontrei. De repente, as questões delicadas que estava vivendo fizeram todo o sentido dentro de mim. E aí eu tive uma espécie de estalo.

Então, quando outros leitores me mandam mensagens me agradecendo pela história, eu percebo como esse estalo simples é importante. Porque a história da Juliana é mega simples, mesmo. É só uma garota romântica, esperando viver um conto de fadas, mas que não acha que merece porque o mundo a sua volta parece acreditar que só existe possibilidade de relacionamento se o sexo for um pilar importante. Parece algo estúpido de se pensar em pleno século vinte e um, mas essa discussão volta e meia aparece nas redes sociais, e me mostra, de novo, que as melhores narrativas são aquelas mais simples e delicadas, como Juliana e toda a construção de As Estrelas Sabem.

É triste ainda se precisar desse tipo de enredo para falar coisas óbvias para muita gente. Mas aprendi na Psicologia que, muitas vezes, é o óbvio que tem que ser dito. E o óbvio da coisa toda é mais ou menos o que um dos personagens diz para Juliana, ao discutir sobre sexo no relacionamento: “se relacionamento fosse uma casa, a pilastra do sexo seria aquela que, se retirar, a casa ainda ficaria em pé, desde que a base e as outras pilastras tivessem sido solidificadas o suficiente.”

E é isso, no fim das contas. Escrever AES foi entender que existem diversas formas de amar e ser amado, e que, se essas formas não envolvem menores de idade com maiores de idade, ou pessoas desacordadas e mortas com pessoas vivas, ou animais com seres humanos, então todas as formas são válidas. E devem ter seu espaço para serem representadas.

Então, respondendo a pergunta que originou o começo da história, não se escrevem sobre Julianas porque é difícil escrever sobre aquilo que parece tão além da norma, numa sociedade que parece valorizar o sexo acima de tudo. E tudo bem que o sexo seja importante para algumas pessoas, mas algumas não são todas, e o que fica de fora nem sempre se encaixa. Depois de As Estrelas Sabem, quase tudo virou: e por que não falar disso? Por mais difícil que seja. Porque é. Mas também é gratificante saber que tantas e tantas pessoas se identificam com uma coisa tão simples e que, ainda assim, faz tanta falta no mercado.


Fernanda Campos


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As Estrelas Sabem está disponível gratuitamente no Kindle até o dia 26 de outubro, então aproveite!!!



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Sobre escrever uma protagonista assexual Sobre escrever uma protagonista assexual Reviewed by Pensando por aí on outubro 24, 2019 Rating: 5

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