No Good Nick: adeus heróis e vilões, seres humanos são complexos e controversos

No Good Nick (serie, 2019) | Netflix


Como antes já mencionado na crítica do show, No Good Nick é um seriado de comédia construído sobre o plot que muitos de nós crescemos vendo na televisão; o de um charlatão que entra para (ou se conecta com) uma família possuindo péssimas intenções.

Diferentemente de outras séries e filmes com esse mesmo trope, No Good Nick constrói seus personagens de maneira honesta, condizente com a realidade, sem aumentá-los ou diminuí-los para caber em categorias tão ilusórias como "vilões" e "heróis". É uma história que nos é contada através da revelação de cada pequeno detalhe de seus personagens, desde os que marcam menos presença até aqueles tidos como principais, nos mostrando a preocupação minuciosa dos escritores em nos dar personagens com quem possamos nos identificar de verdade.

Com essa abordagem, começando já na utilização da nossa noção baseada no senso-comum de bom e mau, a evolução é perceptível e muito bem encaixada, quebrando essa mesma noção aos poucos, apresentando distinções e camadas às situações e personagens, nos puxando, vidrados, para tudo que ocorre, sem deixar perceber o exato momento em que nos deixa enlouquecidos, viciados, em tudo que envolva esse mundo.

E isso é o que torna a série, em sua essência, ainda mais incrível. Porque, finalmente, temos uma série que traz uma vivência esquecida, extremamente particular, à luz ao mesmo tempo que mostra como nem tudo é tão preto e branco como muitas vezes nos é feito crer, seja pela mídia, sociedade ou parentes. Enfim temos um seriado nos trazendo a lembrança, extremamente importante nos dias de hoje, que há muitos tipos de cinza entre preto e branco, além das outras cores.

Tal evolução, é a mesma que vemos em personagens tão amados por muitos, como Tony Stark, Loki Odinson, Ava (Homem-Formiga e a Vespa), Adora (She-ra e as princesas do poder) e Lapis Lazuli (Steven Universe), entre tantos outros. Uma evolução construída passando a mensagem de que está tudo bem em você ter o passado que tem, que você pode - como também é muito fácil - mudar de opinião e ideias, e que você não é o culpado pelas decisões que os outros fazem. E nada disso exclui que a mesma é uma a série leve e divertida de ser assistida, mas é justamente algo que torna ela singular, fugindo do comum do trope no qual ela se encaixa, e a torna muito mais profunda do que a dão o crédito de ser. 

Muitas pessoas acreditam que No Good Nick é só mais uma história sem profundidade devido a imagem de série infantil, mas também porque, além de não verem adiante do primeiro episódio, a julgam com um enredo fraco, com medo de ser sensível e distinta, quando ela se prova, episódio após episódio, atingindo seu ápice de originalidade e genialidade na segunda temporada - ou parte, como é definida -, o exato contrário.

Ela mostra o que a TV americana sempre mostrou e depois vai trabalhando cada detalhe sem sair do contexto nem ser forçado. No Good Nick é tudo pra mim, tudo que importa.

Essa citação acima foi digitada por Flora Luiza Rosa, amiga com quem foi realizada uma conversa muito profunda e cheia de caps locks e gritos sobre No Good Nick. E não poderia ser mais verdade, já que apesar da impressão que nos passa de início, é uma trama impressionante, fora do comum - mesmo trabalhando com um dispositivo de enredo extremamente ordinário (significado de trope) -, com atores poderosos que causaram impacto em toda uma geração anterior (Sean Astin e Melissa Joan Hart) e representativa, nos trazendo questões feministas, questões de ativismo, e personagens (e atores) LGBTQ.

Essencial demais, é uma série que merece maiores reconhecimentos, divulgação e atenção. Uma parte 3 não pode faltar, assim como quantas mais partes os escritores acharem essenciais, e se Sean Astin já pediu, então não perca tempo e apoie este homem que recentemente teve seu dia de apreciação no Twitter e acesse já a sua Netflix.

Imagem: Netflix

Jota Albuquerque

Jota é mais um jovem adulto vagando pela vida sem a menor ideia do que está fazendo (ou acontecendo). Tradutor Intérprete em formação, também pensa em se meter com Ciências Políticas e/ou Cinema. Um ser necessitado de paciência e autopreservação, ele é também um paulistano romântico viciado em pesquisas. Se tiver dúvidas de onde encontra-lo, é só seguir as trilhas de discussões políticas que há por aí.

No Good Nick: adeus heróis e vilões, seres humanos são complexos e controversos No Good Nick: adeus heróis e vilões, seres humanos são complexos e controversos Reviewed by Jota Albuquerque on outubro 03, 2019 Rating: 5

Nenhum comentário:

Tecnologia do Blogger.