Como eu descobri que era assexual


Um dia desses eu estava vendo uma conversa antiga minha com alguns colegas da faculdade –Época que eu ainda tinha o Windows Phone em meados de 2014 – e eu não pude deixar de notar em como eu não tinha nenhum tipo de dúvida sobre a minha sexualidade (fiquei pasma com a minha eu do passado).

Eu era tipo aquela personagem de séries de TV que se alguém perguntasse “Você é Gay/Bi/Pan?” responderia: “Eu? Eu mesma não. De onde você tirou isso?”. Deve ter sido em 2017 que eu comecei a não ter mais tanta certeza de quem eu era. Bem Harry Styles ela:

“Lights up and they know who you are

Know who you are

Do you know who you are?”

Eu tive uma crise horrível querendo achar um rótulo que fosse EU e acabei recebendo apoio de uma gringa linda e maravilhosa que me disse que eu não precisava me rotular se não quisesse e se estivesse procurando me encontrar que eu poderia fazer isso sem pressa. Eu estava também descobrindo sobre ser birromântica nessa época e o que ela me disse me acalmou bastante. 

Eu nunca tinha parado para analisar tanto meu passado, então foi como abrir a caixa de Pandora, só que no caso eu deixei escapar todas as minhas dúvidas. Eu conseguia passar anos – e eu nem estou sendo exagerada – sem me interessar por alguém ou beijar ou ficar ou sei lá o que mais os adolescentes sintam vontade de fazer.

Eu acho que se descobrir assexual tem a ver com olhar para o seu passado e entender com calma seus sentimentos. Aprender que atração romântica e sexual são separadas uma da outra e atração estética não é a mesma coisa que a sexual também. E que a estética pode estar ligada com a romântica em alguns casos, mas novamente, não com a sexual. E que você pode gostar de coisas sexuais sem sentir atração sexual. (Isso não é para todo mundo, porém alguns assexuais gostam de masturbação ou até de fazer sexo por causa da sensação vulgo orgasmo e não por ter atração sexual pela pessoa com quem estão fazendo isso.)

Já tô até vendo aquela parte obscura do Twitter falando “Nossa, mas pra que complicar assim? É tudo a mesma coisa!”. Não é tão fácil assim, não. E dá licença que eu estou contando como me sinto, obrigada, uma vivência MINHA, me desculpe se você NUNCA passou por problemas desse tipo e prefere ficar com a mente fechada. E eu fui tão a fundo nessa minha pesquisa que comecei a visitar um monte de sites e ver um monte de vídeos. Entrei em alguns grupos brasileiros sobre assexualidade e grupos gringos também onde encontrei pessoas muito parecidas comigo enfrentando problemas bem parecidos.

E agora uma historinha minha para vocês. A gente lá no grupo tende a compartilhar momentos assim e extravasar:

Quando eu era mais nova eu gostei de um menino, eu adorava conversar com ele, passava horas no MSN até de madrugada e ele dizia que SÓ EU conversava tanto com ele e isso me mexia demais, finalmente uma conexão com alguém, finalmente meu conto de fadas acontecendo.

Me lembro que quando eu beijei ele, achei que fosse ser como nos filmes, que ia parecer certo, que eu ia sentir alguma coisa diferente, que viriam fogos por toda parte, aquela emoção de "FINALMENTEEEEE P*RRA eu tô beijando a pessoa que eu gosto", mas não foi. Eu lembro de até passar protetor labial NA SALA DE CINEMA DO LADO DELE (sim, micos) para ver se o beijo melhorava, mas beijar ele ou uma parede não ia fazer diferença alguma. Era tudo a mesma coisa. Mas a senhorita-não-desisto-tão-facilmente tentou mais 6 vezes em diferentes momentos e não deu certo.

É, não foi.

E depois disso cada um seguiu com a vida e eu culpei meu lado Disney; passei meu ensino médio e faculdade estragando amizades por acabar gostando dos meus amigos que só me viam como amiga. Sim, eu me apaixonava depois de anos de convívio.

Acho que olhando de volta dá para sacar que arromântica eu não era.

Eu também nunca olhei para um garoto e quis algo além de dar as mãos ou deitar a cabeça no ombro. Trocaria sexo por deitar a cabeça no ombro por qualquer coisa. QUALQUER COISA MESMO. Até porque na minha visão eu não entendo o apelo todo com sexo. O mundo tem um apelo muito grande porque as pessoas gostam de sexo. É óbvio. Eu sei. Todos sabemos. Haha. É só que se o mundo fosse feito só de assexuais vocês iam ver a distopia louca que ia ser.

Eu também encontrei na minha vida uma menina que disse que eu não existia, era na época que eu acreditava ser demissexual (A ilusão de que eu poderia, sim, conseguir ter atração sexual por alguém que eu tivesse uma profunda conexão me tomava).  E ela fez o desfavor de dizer que quem fazia sexo casual não se dava o valor e que todo mundo deveria ser assexual. E que não tinha essa de demissexual, que todo mundo era demissexual porque todo mundo fazia sexo com quem gostava e que não querer fazer sexo com estranhos era normal. (Nem eu entendi o que ela tava tentando dizer.)

GENTE SER ACE NÃO É UMA ESCOLHA. NÃO É. É DIFERENTE DE CELIBATO.

Eu não acordei um dia e disse “Não vou ter atração sexual por ninguém”. Seria a mesma coisa que dizer que ser gay ou bi é uma escolha. O que não é! Para mim, às vezes, é difícil pensar em um relacionamento com uma pessoa (ainda mais com apps como Tinder e Grindr) sem me preocupar com a pessoa tendo uma possível atração sexual por mim. Já recebi convites para assistir um filme na casa da pessoa ou para jogar um jogo de videogame, mas eu sempre ficava com o pé atrás do tipo “Eu não nasci ontem, eu sei o que isso pode ser...”.

Problemas da comunidade ace com allos in a nutshell.

E ainda nem falei do problema de como a assexualidade é apagada do movimento LGBTQ+ porque as pessoas acham que o + é só o símbolo de soma na matemática e que não tem nada depois dele, ou que a gente só está querendo ser alguma coisa e está buscando a opressão porque quer (Meu Jesus do céu me dê paciência porque se me der força eu mato).

Lógico, estupro corretivo ou gente falando que homem que não transa com mulher só pode ser gay (como ele ousa negar sexo com uma mulher) é muito divertido – altas notas de ironia –, quando na verdade ele só não sente atração sexual por mulher nem por homem, nem por ninguém. Ou gente dizendo simplesmente que é uma doença e que a pessoa tem que se tratar (Não é doença!)

Nossa, muito divertido eu escolhendo toda essa opressão, uau que divertido tudo isso, morrendo de rir aqui. *Respirando fundo*

Mas, enfim gente, eu acabei transformando isso aqui num desabafo. É mais sobre tudo que eu vi desde que me descobri ace, sendo que eu queria deixar claro que não sou a super voz da razão, okay? Você pode discordar de mim em vários pontos. Eu ia amar ouvir o que vocês têm a dizer sobre isso.

Eu mesma continuo aprendendo mais e mais todos os dias sobre mim e sobre os outros.

***

Sobre a autora

Jéssica Carla Marques ou Jace para os íntimos, 24 anos, Manaura, formada em Design Digital e prestes a cursar Letras: Inglês e Português. Passa maior parte do tempo lendo, escrevendo, assistindo séries, filmes e animes e na outra pesquisando sobre representatividade LGBTQ+ e dicas de escrita. Tem um livro de fantasia em produção que possivelmente será publicado ano que vem, um canal – meio parado - no youtube chamado Jacer e uma gata chamada Katie.


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Como eu descobri que era assexual Como eu descobri que era assexual Reviewed by Pensando por aí on outubro 26, 2019 Rating: 5

2 comentários:

  1. Cara, eu ainda me bugo com o que sou. Eu desde 2018 quando entrei na faculdade me descobri Demi e fez TOTAL sentido pra mim, tudo fechava completamente e eu me identifico perfeitamente, mas eu to a um tempo com uma garota, sou apaixonado por ela MESMO e eu tive minha primeira vez com ela (Tenho 19 anos) e me dei conta que sexo na real era um negócio bem "Meh", como dizem os memes "Eu preferiria comer um bolo!" e bah cara, isso me bugou TAAANTO!!! conversei com uma amiga e eu cheguei a conclusão de que além de Demi eu pelo até certo ponto (Vamos usar essa expressão por falta de melhor) devo ser assexual, pq eu realmente não sinto a menor necessidade e vontade de fazer sexo, não vale muito a pena, ficar deitado fazendo carinho nela é milhões de vezes melhor!

    É confuso, de 2018 pra cá eu venho só me descobrindo nesse lado da minha vida e dá um alivio grande, sinto que não tem nada de errado comigo, FINALMENTE sinto isso, foda-se eu sou diferente só e é isso caralho! É bom e fico feliz haha

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  2. É maravilhoso descobrir que não tem nada de errado com a gente. Sou assim desde que me lembro. Sempre me perguntavam pq eu nao tinha vontade de beijar e etc, se eu tinha algum trauma... eu pensava nas possibilidades até qur descobri o ACE, seja lá no que eu me rotule, sei hoje que sou saudável, assexualidade não é doença ^.^

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