Romances de banca e sua fixação com mamilos cor de fruta




Quando mulheres negras dizem que o feminismo branco não as contempla, e que muito do que se lutou e conquistou ainda é um sonho para elas, algumas pessoas viram a cara e dizem que isso só divide o movimento, mas não, isso só mostra que o movimento é mais necessário do que nunca. Hoje eu vim falar sobre uma dessas diferenças de conquistas. 

Por muitos anos eu consumi de forma compulsiva livros conhecidos como romances de banca que, apesar de marginalizados até hoje, foi uma conquista das mulheres. Se pensarmos em como tudo que se refere a mulheres e trabalho, e como as coisas são duas vezes mais difíceis para nós, escrever romances é uma das poucas carreiras em que é possível que uma mulher entre na indústria, aos 40 ou 50 anos, ao lado ou depois de criar seus filhos, sendo donas de casa ou trabalhando fora, e alcance os mais altos níveis de sucesso profissional. 

Esses romances seguem algumas fórmulas que culminam para um mesmo final, o alcance do “feliz para sempre” pelos protagonistas. Existe nesse gênero uma vasta possibilidades de enredos e temáticas, desde cowboys, militares, romances históricos, e quase tudo que você possa imaginar, principalmente em relação ao contexto americano, apesar de vez outra, encontrarmos temas que saiam desse eixo, como livros com gregos, árabes, latinos (que por vezes são um recorte bem estereotipados e preconceituosos). O que não vemos, ao menos eu nunca vi, depois de ter lido mais ou menos uns 500 livros, são protagonistas negros, e mais, autores negros. Não é que não existam, o fato é que não há uma procura, por muitas vezes nem sabemos como ou onde procurarmos, não é fácil de achar, e o mais triste, mulheres negras estão tão acostumadas a não serem protagonistas que a indignação e possibilidade de ter um livro com personagens negros nem é uma questão, até nossos olhos serem abertos. 

Não posso entrar no mérito de enredos com protagonismo asiático, mas não duvido que algo similar aconteça, porque é mais fácil e crível, aceitar histórias com fantasmas, vampiros ou qualquer coisa sobrenatural, do que reconhecer que pessoas não-brancas vivem, amam, se relacionam, possuem conquistas e dificuldades tais como pessoas brancas. Do que reconhecer que pessoas não-brancas também são pessoas, também escrevem e leem, também existem. Ou seja, sendo esse gênero algo voltado majoritariamente para o público feminino e sendo produzido por ele, eu me pergunto sobre feminismo, e vejo que alguns espaços definitivamente não foram alcançados por todos. 

Confesso que não sei como brancos não ficam desconfortáveis, e têm coragem de negar o racismo que existe em tantas esferas, eu quando me vejo em alguma posição de privilégio busco ao menos reconhecer esse lugar e me perguntar como trazer outros para junto de mim. Entretanto, foi com choque que percebi que não é isso que acontece nesse universo que muito me trouxe alegria e contato com a leitura. Por anos li sobre mamilos rosados sem nunca vislumbrar o meu também “felizes para sempre”, porque apesar de todos os percalços que a mocinha passou para enfim encontrar o amor e a felicidade, essa mocinha nunca era negra. 

O The Guardian publicou uma matéria em 4 de abril de 2019, chamada “ Cinquenta tons de branco: a longa luta contra o racismo em romances”, nela lemos sobre um fato que aconteceu com Shirley Hailstock, romancista negra e ex-presidente da RWA (Romance Writers of America), que contou sobre uma carta de fã que ela recebeu de uma autora de romances brancos, na carta, a remetente dizia ter gostado muito do livro, e sendo aquele o primeiro romance afro-americano que lia, ficou surpresa com o fato de pessoas negras se apaixonarem como pessoas brancas. Segundo ela, a ideia que tinha era de que pessoas negras viviam relacionamentos somente através de “sexo ou febre selvagem”, mais uma vez me choca a falta noção do quanto essas palavras, e forma de pensar, são preconceituosas. 

Ainda na matéria do The Guardian, Beverly Jenkins, uma autora icônica do romance histórico afro-americano, diz que anos atrás quando ela começou a escrever, alguém falou para ela que seu livro era o primeiro onde havia visto uma heroína com mamilos marrons, e é isso mesmo, existe uma fixação por mamilos cor de fruta; pêssegos, cerejas, framboesas maduras; porque essas parecem às únicas cores de mamilos que existem, e é claro que inadequados somos nós que não nos encaixamos nesse modelo, pois aprendemos a pensar a nossa própria imagem atrás de um padrão branco.

Para produzir algo é preciso estudar, praticar, se aperfeiçoar, mas para pessoas não-brancas, ainda é preciso outra coisa: descobrir como se representar quando não temos referências e nem bases de estudo para isso. Eu estive numa palestra sobre afrofuturo e essa foi uma das questões levantadas por um dos participantes que é design e ilustrador, ele dizia que quando começou a de fato estudar desenho, todo material tinha como base modelos brancos, e em determinado momento ele percebeu que não sabia se desenhar; como ilustrar seu nariz, seus traços, os diversos tipos de cabelo; e não é fácil achar instrumentos que ensinem sobre representar essas características. 

O mundo não é branco, existe uma variedade de tons e formas de mamilos, nossas lutas não são as mesmas, ainda que por vezes elas se encontrem, não só o universo dos romances de banca necessitam reconhecer e discutir pautas de cor e raça, como nós enquanto sociedade devemos observar o que estamos escrevendo, desenhando, filmando; se representamos o que vemos, onde pessoas não-brancas se encaixam em nossas vidas?

Taiany Araujo

É mais uma millennial cheia de sonhos, medos e uma paixão pelos anos 90. Fã de Legião Urbana, não dispensa música brega e se identifica como uma mistura de Rubel e Caetano. Não é estranho pegá-la falando sozinha, muito menos perde-la de vista, mas, é só dizer a palavra “livro” que ela aparece mais rápido que fã de Harry Potter pedindo pra colocar os filmes na Netflix.

Romances de banca e sua fixação com mamilos cor de fruta Romances de banca e sua fixação com mamilos cor de fruta Reviewed by Taiany Araujo on setembro 14, 2019 Rating: 5

Um comentário:

  1. Olá! :) Bem interessante o assunto. Também li muito desses livros, apesar de só mais recentemente ter notado o quão problemáticos muitos são e não só na questão do racismo. Vou dar uma olhada no link depois.

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