Crítica: No Good Nick (Parte 1 e 2), de David H. Steinberg e Keetgi Kogan


Lançada em 15 de Abril desse ano, No Good Nick é uma série da Netflix criada por David H. Steinberg e Keetgi Kogan que lançou sua segunda parte há menos de um mês. Girando ao redor do já muito utilizado artifício de enredo de uma pessoa que entra em uma família com péssimas intenções em mente, esse seriado nos apresenta uma história sensível, extremamente divertida e muitíssimo bem elaborada.

Apesar da base da trama parecer com qualquer filme de comédia de conhecimento popular envolvendo roubo e família, como, por exemplo, O Pequenino (2000), esse sitcom foge da ideia que nos é pré-concebida, assim como foge do que um sitcom de início deveria ser. Isso se deve, além dos criadores, também à Netflix como um todo, já que, como a Paste analisou, o serviço de streaming possui essa marca própria com suas séries de comédia, deixando-as sair da mesma e se misturarem com outros gêneros, criando uma diversidade de histórias para serem contadas que trabalham de acordo com tais vivências.

Na primeira parte nos é apresentado um universo no senso-comum que conhecemos: a dualidade de bem e mal, o universo preto e branco que sempre nos é apresentado, em que pessoas que fazem coisas ruins são essencialmente más e pessoas que fazem coisas boas são essencialmente boas. Porém, isso é de suprema magnitude para a evolução dos personagens e plot na segunda parte da primeira temporada.

Os primeiros episódios começam pacientes, explorando o desdobramento de maneira gentil dos personagens e suas trajetórias, quem eles são e serão, sem buscar correr o seu ritmo, sem tentar pular etapas. Nisso, podemos conhecer melhor eles, quais suas motivações, sonhos e medos, o que acaba por capturar a nossa atenção conforme cada novo episódio passa. E a família, os Thompson, de quem a história gira ao redor, são intrigantes demais devido sua complexidade. O melhor é ver essa complexidade funcionando entre eles, se ajustando como um quebra-cabeça num exemplo de família saudável que é imperativo a representação nos dias de hoje.

Ed (Sean Astin), Lisa (Melissa Joan Hart), Jeremy (Kalama Epstein) e Molly (Lauren Lindsey Donzis) compõem esse núcleo familiar dinâmico, engraçado e real com suas dificuldades e anseios. Eles são seres humanos distintos entre si, donos de mundos pessoais individuais, de diferentes valores e ideais, e controversos, portanto, cometem erros, magoam uns aos outros, só que no fim do dia sabem que estarão sempre ali um pelo outro. E é essa a distinção que é significante para a série: o significado de família, em seu centro, não é só amor (até porque nada se mantém só disso, como já foi dito aqui em algumas edições do Além do Ordinário), mas é respeito, compreensão e empatia.

Em muitos episódios vemos a ressalva de questões como "lutar pelo que acredita não o torna dramático", "cada um luta para tornar o mundo melhor da maneira que lhe caber" e "tudo bem se indignar com algo que para você é incabível" vinda dos pais para seus filhos, o que constrói uma noção de sentimentos são válidos e a maneira como você lida com eles é importante. Além de, claro, isso passar uma excelente mensagem para qualquer criança assistindo essa série, é um ótimo redirecionando para adolescentes e adultos.

Por isso é tão interessante ver a dinâmica de Nick (Siena Agudong) com a família. Ela é uma garota que vive uma vida de mentiras, que foi parar com uma família adotiva disfuncional e tem todos esses muros construídos ao seu redor dentro de uma família amorosa, que trabalha com frases de positivismo e empoderamento e se importa com ela, quer o seu bem sem pedir nada em troca. Pode-se ver, em diversos momentos, como toda essa compreensão e empatia misturado ao respeito é algo que choca Nicole.

Na segunda parte do show temos essa evolução familiar focada mais nos personagens como indivíduos e menos como coletivo familiar, portanto podemos compreender mais cada um deles de maneira pessoal, íntima, o que não conseguimos muito na primeira, que nos entrega mais pequenos detalhes e subdesenvolvimentos para focar em os aprofundar como família e interações com Nick. Essa alternância decidida para as duas temporadas funciona muito bem, nos fornecendo mais surpresas, lágrimas e risadas, revelando novas camadas das cebolas que os personagens são.

Tudo isso para dizer que o roteiro é impecável, assim como a relação entre os atores, que conseguem dar vida aos seus personagens e suas relações de maneira tão crível, e a direção, que consegue conectar as peças faltantes de maneira cuidadosa e atenciosa. No geral, é um trabalho que você consegue perceber a sensibilidade, o interesse daqueles responsáveis.

Caso a sua preocupação seja com a representatividade na série, vai ficar feliz de saber que além de possuir personagens e atores LGBTQ, como Josie Totah (Glee, Jessie Champions) interpretando Lisa, traz questões de ativismo, consciência global e feminismo, fazendo perguntas pouco questionadas, mas importantes de serem cutucadas. E teorizando devido como a segunda parte foi finalizada, se a parte 3 fosse confirmada - o que não foi (leia mais abaixo) -, teríamos eles abordando sobre a Nick ser birracial e seus pais biológicos. Fica aí uma pulga para você ficar mais curioso de ver o seriado.

Enfim, é uma produção fora do comum que foge de estereótipos e oferece uma refrescante maneira de construir personagens e questionar comportamentos e padrões sociais, ainda conseguindo ser leve e engraçada transitando entre drama e suspense, mesmo com sua construção tão meticulosa. E justamente por isso ela deveria ser vista, apreciada e reconhecida como a obra-prima que é.

Nota sobre o cancelamento: Nesse último domingo, 15, a série foi cancelada pela Netflix, sendo a informação divulgada pela Variety. Infelizmente, surpresa não foi. No Good Nick é uma série pouco divulgada pelo serviço de streaming (o mesmo erro que a empresa cometeu com One Day at a Time, consequentemente sofrendo represálias de seus consumidores). Não vou mentir que isso me gerou diversas revoltas, tanto pelos escritores e cast, quanto por ver uma série com tanto potencial pra crescer e se tornar um ícone memorável para diversas pessoas não só da minha geração, mas de qualquer outra, ser desperdiçada e jogada fora como se não fosse nada por uma empresa que se diz pró-diversidade enquanto produz séries como 13 Reasons Why e Insatiable. Apesar de possuir um elenco diverso, no qual dois atores são conhecidos por nossos pais desde suas adolescências, até o momento nenhum serviço de streaming ou canal mostrou interesse em salvar ela.

Jota Albuquerque

Jota é mais um jovem adulto vagando pela vida sem a menor ideia do que está fazendo (ou acontecendo). Tradutor Intérprete em formação, também pensa em se meter com Ciências Políticas e/ou Cinema. Um ser necessitado de paciência e autopreservação, ele é também um paulistano romântico viciado em pesquisas. Se tiver dúvidas de onde encontra-lo, é só seguir as trilhas de discussões políticas que há por aí.

Crítica: No Good Nick (Parte 1 e 2), de David H. Steinberg e Keetgi Kogan Crítica: No Good Nick (Parte 1 e 2), de David H. Steinberg e Keetgi Kogan Reviewed by Jota Albuquerque on setembro 16, 2019 Rating: 5

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