Crítica: Family Reunion (Parte 1), de Meg DeLoatch

Family Reunion - Netflix Official - Capa Pensando Por Aí

Desde One Day at a Time, a Netflix vem insistindo em sitcoms, séries de comédia, que abordem temas atuais e sociais. E com Reunião Familiar não foi diferente, já que é uma produção que possui um direcionamento cômico envolvendo um núcleo familiar e discussões importantes cercando religião, etnicidade e masculinidade, além de outros.

Não que isso apague a originalidade da série, inclusive, a construção dela como um todo só reforça como é única e que pode, como traz, novas visões sobre diversas questões que estão em pauta no dia de hoje, desde feminismo até agressão policial, tudo ao redor da negritude. Entretanto, é uma série que costuma não ganhar muito reconhecimento devido à sua premissa inicial; "Cocoa McKellan é uma mãe divertida que vive em Seattle com o marido (um ex-astro de futebol americano) e suas quatro crianças. Tudo muda quando eles decidem viajar para a grande reunião da família McKellan, em uma cidadezinha na Georgia"; a qual não transmite a essência da série e quão divertida ela pode ser.

Representativa, é um seriado pra ser visto por crianças, idosos e todos nesse meio. A história nos mostra um constante choque de culturas entre uma família moderna com uma conservadora do sul norte-americano, as quais constituem um único lar, e esse choque é justamente o que nos faz criar essa conexão real com a série, pois é a mesma relação que muitas famílias têm. Além de, claro, o cenário ajudar muito em construir essa sensação de pertencimento, já que muitas das casas do sul dos Estados Unidos nos passam a imagem de infância, de identidade e para alguns, lembram a própria vida do interior.

E trabalhando em cima disso e com os elementos lhes proporcionados, os personagens ganham todos espaço para evoluir, mudar de opinião e se permitir a vulnerabilidade. E essa é, sem dúvidas, a questão mais bem cuidada na série; a vulnerabilidade, deixando claro como todos podem e são sensíveis, que é importante ser vulnerável o bastante pra reconhecer seus erros e muda-los, especialmente os mais velhos.

Vivemos num mundo como os mais velhos constantemente se dizem corretos e não arredam, não se permitem mudar de opinião e reconhecer o que fizeram de errado, agindo da mesma maneira que eles condenam adolescentes por agir, e Family Reunion demonstra isso em pequenos gestos, em grandes gestos e com subtextos importantes, desde o pai indo conversar com seus filhos e assumir para eles como errou, até a avó pedindo desculpas para a nora.

E esse tipo de relação, além de ser extreamente importante pra construir uma noção saudável de família para o telespectador, possui sua necessidade na questão da sobrevivência para os personagens, já que se com One Day at a Time tinhamos uma série que procurava falar abertamente do racismo que pessoas latinas vivem, em Reunião Familiar, temos em peso a discussão do racismo ao redor da negritude, e as diferentes raízes que originam das ações preconceituosas das pessoas. E parte de possuir força, capacidade e resiliência é também daqueles que te rodeiam, de você saber que existem pessoas no mundo com quem você pode contar.

Apesar de uma série de comédia, a nova criação da Netflix é honesta sobre o que veio tratar, aprofundando, deixando cada vez mais claro que racismo é uma coisa séria. Cada episódio é finalizado com uma homenagem à uma, senão várias, pessoa negra; em muitos, inclusive, existem menções a opressão policial. A finalização da primeira parte dessa história é uma culminação do lento desenvolver necessário dos primeiros episódios com a urgência crescente do intermédio, nos deixando de queixos caídos e em prantos por um seguimento.

Tudo isso se deve às atuações tão equilibradas de acordo com cada situação que os atores foram colocados, desde cômica a trágica, sabendo executar a alternância de maneira sútil e natural. Também, não deveria ser surpresa, devido ao cast poderoso envolvendo Loretta Devine (Grey's Anatomy, Pulando a Vassoura), Anthony Alabi (ex-atacante de futebol americano; Dimension 404 e Pee Wee's Big Holiday) e Tia Mowry (Twitches, 17 Outra Vez). 

Jota Albuquerque

Jota é mais um jovem adulto vagando pela vida sem a menor ideia do que está fazendo (ou acontecendo). Tradutor Intérprete em formação, também pensa em se meter com Ciências Políticas e/ou Cinema. Um ser necessitado de paciência e autopreservação, ele é também um paulistano romântico viciado em pesquisas. Se tiver dúvidas de onde encontra-lo, é só seguir as trilhas de discussões políticas que há por aí.

Crítica: Family Reunion (Parte 1), de Meg DeLoatch Crítica: Family Reunion (Parte 1), de Meg DeLoatch Reviewed by Jota Albuquerque on setembro 05, 2019 Rating: 5

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