[Resenha] Mister, de E.L James


Depois de ter obtido bastante sucesso com a série Cinquenta Tons de Cinza, a escritora britânica E.L. James volta a publicar um novo livro chamado Mister

E.L James está de volta. Deixando de lado o sucesso da trilogia Cinquenta Tons de Cinza, a mente por trás do romance erótico que movimentou a indústria editorial alguns anos atrás ressurge com uma história vazia e ao mesmo tempo transbordante de romance, erotismo e suspense. 

Mister, que apesar do título não tem nenhuma relação com o BDSM genericamente excitante de Fifty Shades of Grey, é protagonizado por Maxim Trevelyan, um modelo-DJ-fotógrafo-compositor que por um acaso infeliz torna-se o conde de Trevethick, e Alessia Demarchi, imigrante albanesa linda, jovem, pobre e pianista sinestésica de nível de concerto. Mais uma vez James volta a escrever romances retrógrados entre homens poderosos e mulheres desconfortavelmente vulneráveis. 

Em sua defesa, tenho que dizer que aparentemente James ouviu as críticas feitas aos seus erros anteriores. Em Mister existe uma clara autoconsciência dos pontos problemáticos da trama. Por diversos momentos Maxim e Alessia refletem sobre a dinâmica dos dois, mas sempre de forma casual e efêmera, que chega ser mais inquietante do que o silêncio ensurdecedor a toxicidade do relacionamento entre os personagens de seu trabalho anterior. 

Diferentemente de Christian Grey, E.L James expõem abertamente todos os defeitos de Maxim; mulherengo, preguiçoso, canalha e bagunceiro. É tão óbvia a construção de um personagem falho, mas ao mesmo tempo é ainda mais claro a forma como ela tenta torná-lo amado pelo público sendo o salvador da donzela em perigo. E põem donzela em perigo! Alessia, aos 23 anos, foi traficada para a Inglaterra e acabou virando faxineira na casa palaciana de Trevelyan após fugir de traficantes sexuais. Ela não tem passaporte, dinheiro ou poder, mas possui um pai abusivo, um ex-noivo abusivo, dois traficantes de sexo furiosos a perseguindo, mas ela continua virgem e de vez em quando se masturba. 

É triste observar como temas tão relevantes como tráfico sexual, imigração e imigrantes indocumentados são tratados de forma tão banal nas mãos de E.L James. O passado e trauma de Alessia é, na maioria das vezes, apenas um dispositivo narrativo que permite a James traçar complicações e dramáticas reviravoltas em sua história excessivamente longa. Com quase 500 páginas chega a ser engraçado como o livro não tem nada a dizer. Indo na contramão do mercado de romances Mister evoca o passado com sua trama rasa, personagens com estereótipos retrógrados e soluções de enredo pouco críveis. O gênero de romances mudou, isso é perceptível quando se depara com o trabalho de Julia Quinn - que mesmo escrevendo romances de época tem personagens feministas e tramas que incentiva o público a refletir sobre temas complexos - ou de Solaine Chioro - que foge da brancura cis. Mister é um desserviço a revolução que está sendo realizada nos últimos anos no mercado editorial de romances. Mister é uma volta no tempo. Não precisamos disso. 

Não posso finalizar essa resenha sem deixar de citar dois pontos que também chamam bastante atenção quando o assunto é o trabalho de E.L James: a capa e a música. Apesar de agradável aos olhos a capa de Mister é uma decepção, pois tenha em mente que as capas de Cinquenta Tons de Cinza são tão icônicas que influenciaram todo o mercado editorial. A capa de Mister é tão banal que chega ao ponto de ser esquecível. Mas se a capa é uma decepção não posso dizer o mesmo sobre a playlist. E.L James continua com a mania de fazer com que seus personagens sejam apaixonados por música e dessa forma introduz várias canções ao longo da história. De Bach a Dua Lipa a playlist de Mister é eclética e deliciosa de se ouvir.



Ficha técnica




Autora: E.L. James
Tradução: Cássia Zanon, Catharina Pinheiro, Julia Sobral Campos e Maria Carmelita Dias
Editora: Intrínseca
Ano: 2019 / Páginas: 432
Disponível em: Amazon




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Crédito imagem de capa: foto de 
Sandrachile / Editora Intrínseca / Pensando Por Aí

Elilyan

Elilyan é uma leitora compulsiva que fala e pensa demais. No resto é super moderada. Escreve sobre livros, cinema, TV, música, sexo, arte, tecnologia e qualquer outra coisa que passe por sua mente insana. Para ler todos os textos da maluca bastar acessar a tag Elilyan Andrade. Se quiser fazer parte do hospício basta segui-la no Twitter e Instagram @elilyan.

[Resenha] Mister, de E.L James [Resenha] Mister, de E.L James Reviewed by Elilyan on julho 06, 2019 Rating: 5

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