Os Bridgertons: Ignorância, racismo e representatividade

Site Pensando Por Aí - Regé-Jean Page série The Bridgerton


Regência britânica, alta sociedade, salões de baile, casamento arranjado e conflitos de poder serão o centro das atenções em The Bridgerton, nova série original da Netflix, que tem como produtora Shonda Rhimes (Scandal, Grey’s Anatomy, How to Get Away With Murder). O drama de época é baseado na série de oito livros de Julia Quinn. The Bridgerton é uma série amada com leitores fiéis, então quando foi anunciada a adaptação dos livros em uma série da Netflix o fandom de romances históricos foi à loucura. O anúncio de que lady Julie Andrews dublará Lady Whistledown foi muito bem aceito pelos fãs, mas quando divulgado que o ator britânico-zimbabuano Regé-Jean Page dará vida ao duque Simon Basset o caos fez sua festa com a ignorância e o racismo dominando o Twitter. 

Quando você pensa na Regência Britânica, período da história que compreende a época entre 1811 e 1820 em que o Rei George III da Grã-Bretanha ficou incapaz de governar, é bastante provável que venha à mente os lordes e ladies brancos e bem vestidos característicos dos romances de Jane Austen. Isso graças a inúmeras adaptações dramáticas sobre esse período do tempo. Uma coisa que muitas vezes foi cortada da narrativa, no entanto, são que pessoas negras viveram em toda a Grã-Bretanha desde o século 3 a.C.


A questão mais profunda e mais fundamental é por quê? Por que algumas pessoas ficam tão ofendidas com a ideia de que a presença negra na Grã-Bretanha remonta a tantos séculos? Por que, mesmo quando as evidências históricas são apresentadas e as opiniões de especialistas dadas, eles estão determinados a rejeitar os fatos (...) A recusa em aceitar que a presença negra na Grã-Bretanha tem uma longa e profunda história não é apenas um sintoma de racismo, é uma forma de racismo. - David Olusoga, historiador e apresentador do documentário da BBC Two, Forgotten Slave Owners


Então, por que raramente ouvimos sobre essas pessoas e suas vidas? Para Andrew Hann, historiador da English Heritage, “a história tende a ser escrita pelos poderosos. Se você olhar para a história arquivística, que é a história que a maioria das pessoas conhece, é predominantemente masculina, é predominantemente branca, é predominantemente de classe média ou dominante, e se concentra muito em relações formais relacionadas ao título e direito à terra e esse tipo de coisas. Você não tende a ter minorias ou populações transitórias em histórias registradas”. Tal fato representa tanto um desafio quanto uma oportunidade para os historiadores, escritores, produtores e criadores para colocar os holofotes sobre minorias que tantas vezes ficaram à margem da história.

Estamos tão acostumados à representações históricas de uma Grã-Bretanha racialmente branca, seja através da literatura, cultura, cinema ou televisão, que ao se deparar com a realidade apresentada pelas novas representações mais fiéis as evidências factuais logo são ouvidas vozes iradas online com acusações de imprecisão histórica. Algumas vezes a ignorância é uma benção, mas nesse caso, em específico, a ignorância do grande público sobre a existência da população negra na Grã-Bretanha desde o tempo do Império Romano só contribui para a continuidade do racismo sistemático. 

Peter Capaldi como Dr Who e Pearl Mackie como Bill Potts explorando a Londres do século XIX
Sanditon, romance inacabado da escritora inglesa Jane Austen, incluía Miss Lambe, uma rica herdeira negra. Jane Austen, a padroeira dos romances de regência, reconheceu a presença de negros na Inglaterra em 1817. (Imagem: Doctor Who/BBC)

Antes que venham argumentar que os negros que existiam eram todos escravos é de amplo consenso da comunidade acadêmica que isso é sofisma. Alunos de todo mundo aprendem sobre os milhões de negros escravizados e o enorme papel que a escravidão desempenhou na economia mundial no século XVIII. Ensinamos sobre a escravidão, mas esquecemos de ensinar que no mesmo período histórico nem todo negro era escravo. 

O credo da superioridade racial era parte e parcela da cultura do Império Britânico, tanto que o mesmo foi construído sobre uma teoria da inferioridade racial, mas focar e representar apenas a população negra como escrava é desmerecer a vida de homens e mulheres como Ignatius Sancho, Dido Elizabeth Belle, Mary Seacole, Ira Aldridge e entre outros. "Em toda a Grã-Bretanha, os negros começaram a estabelecer comunidades, concentrando-se em torno das grandes cidades e portos industriais. Eles também começaram a aumentar cada vez mais o exército, a marinha real e outras profissões.", de acordo com pesquisa do British Historical Series: Regency House Party. Com base dos fatos os atuais dramas históricos estão deixando de representar os negros apenas em papéis de escravos. 


A Grã-Bretanha sempre foi uma sociedade multi-racial. O que é novo é a visibilidade de sua diversidade racial. E o que é mais novo ainda é a disposição de aceitar que todas as raças podem ter paridade de estima. Durante muito tempo, mesmo quando se reconheceu que havia pessoas de origem racial diferente nas Ilhas Britânicas, havia uma suposição de que a raça e a cultura brancas eram e deveriam ser dominantes. - Diane Abbott, primeira mulher negra a ser Membro do Parlamento do Reino Unido


Por exemplo, em 2007, Doctor Who, então na forma de David Tennant, fez uma viagem à Londres de Shakespeare em um episódio marcado em 1599. A representação da capital elisabetana, repleta de sua pequena população negra, levou a acusação de imprecisão histórica. Os criadores do programa foram acusados ​​de distorcer a história britânica em nome da “fingida” diversidade. É irônico pensar que nenhum dos acusadores lembrou que Shakespeare criou uma peça protagonizada por um negro, Otelo, um general mouro que conquista o amor de Desdêmona, filha de um nobre. Duvido muito que Shakespeare tenha criado Otelo apenas em nome da diversidade ou numa visão que mouros só ascendiam socialmente em Veneza. 

Passado dez anos, os ignorantes defensores da precisão histórica deparam-se novamente com o Time Lord, na figura de Peter Capaldi. Caminhando pela Londres de 1814, em plena regência britânica, a companheira do Doctor, Bill Potts, interpretada pela atriz negra Pearl Mackie, notou que a cidade era “um pouco mais negra do que aparecia nos filmes”. "Assim foi Jesus", brincou Doctor Who. "A história é um caiado".

Branquear a história é algo tão comum que quando surgem personagens como Lina de Cardonnes (interpretada por Stephanie Levi-John) em dramas históricos como The Spanish Princess a primeira reação é negar sua existência. Quando o trailer de The Spanish Princess foi lançado, Emma Frost, roteirista da minissérie, disse ter sido inundada por mensagens de trolls que afirmavam que os criadores "liberais" da série estavam tentando "reescrever a história européia" ao "fingir" que havia diversidade naquela época.


Você não pode se reapropriar da história para as mulheres e ignorar outros grupos que foram descartados e eliminados. Faz parte do mesmo problema. A história não é apenas sobre homens brancos. As mulheres estavam lá. Pessoas de cor estavam lá. Uma pesquisa rápida no Google mostrará pessoas negras em tapeçarias do período. Eles estão em nossos registros paroquiais. Eles estão enterrados em nossos cemitérios. Seus casamentos são registrados. É ridículo nesta fase que as pessoas tentem fingir que não existiam. - Emma Frost, roteirista da minissérie The Spanish Princess


O fato é que, embora a presença de pessoas de cor na história britânica seja aceita entre os acadêmicos, ainda não penetrou em grande escala na cultura pop. Até The Spanish Princess, a maioria dos shows e filmes sobre a Inglaterra Tudor eram esmagadoramente brancos. Felizmente, podemos supor que a escalação do ator Regé-Jean Page como o duque Simon Basset para a série The Bridgerton é mais um passo em prol de uma representação fiel da história britânica, assim como The Spanish Princess. Apesar dos racistas e trolls, a sociedade não aceita mais a representação falsa e monocromática do passado. 

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Emma Frost ficou impressionada com outra resposta ao trailer de The Spanish Princess: "Há pessoas nos dizendo que estão chorando porque nunca viram alguém que se parece com elas em um show desse período. Elas dizem: 'Tudo que alguém já fez foi me dizer que eu não existo, e lá eu estou na tela. Você está me dizendo que eu existi’. É uma das coisas que mais me orgulho do show." (Imagem: Starz)


Se quiser se aprofundar mais sobre a história multirracial da Grã-Bretanha confira:

Aqui você saberá sobre a vida de 15 britânicos negros notáveis - [BBC]

Black and British: A Forgotten History - [Google Arts and Culture]

The Black Presence in Britain - [Black Presence

History Britsh - [BBC]

Black Britain and Asian Britain - [British Library

Elilyan

Elilyan é uma leitora compulsiva que fala e pensa demais. No resto é super moderada. Escreve sobre livros, cinema, TV, música, sexo, arte, tecnologia e qualquer outra coisa que passe por sua mente insana. Para ler todos os textos da maluca bastar acessar a tag Elilyan Andrade. Se quiser fazer parte do hospício basta segui-la no Twitter e Instagram @elilyan.

Os Bridgertons: Ignorância, racismo e representatividade Os Bridgertons: Ignorância, racismo e representatividade Reviewed by Elilyan on julho 18, 2019 Rating: 5

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