Crítica: Homem-Aranha: Longe de Casa, de Jon Watts

Homem-Aranha: Longe de Casa, de Jon Watts

No dia 4 deste mês de Julho, quinta-feira, lançou o vigésimo terceiro filme do Universo Cinematográfico Marvel com direção de Jon Watts, Homem-Aranha: Longe de Casa.

Superando expectativas, dando o pontapé inicial para o futuro do personagem e desenvolvendo mais profundamente aqueles já apresentados, a continuação da história de Peter Parker, interpretado por Tom Holland, é claramente uma produção sem maiores objetivos (levando em conta o MCU), visando amarrar pontas soltas deixadas por Ultimato - que fechou a Saga do Infinito - para começar a nova fase. Longe de críticas, essa decisão foi justamente o que o tornou ainda mais genuíno, pois funciona por si só, sem maiores pretensões.

Como toda a produção buscou construir uma obra que focasse na singeleza da adolescência e como, apesar de maliciosa, é uma época muito inocente, recheada de inevitáveis aprendizados, nesse longa-metragem temos um contraste interessante em relação ao primeiro filme do Teioso. Afinal, enquanto no primeiro temos um desenvolvimento de Peter Parker enquanto Homem-Aranha, nesse segundo temos o desenvolvimento do menino como humano.

Claro que, inevitavelmente, é um filme cheio de cenas de luta muito bem orquestradas, efeitos especiais notáveis e a aparição do Sentido Aranha, continuando o desdobramento do herói e nos mostrando novas facetas de capacidade, mas procurando exercer isso humanizando o personagem, cristalizando que ele ainda é um adolescente, e que portanto irá cometer erros, passar por obstáculos e romances.

Desenvolvido por Chris McKenna e Erik Sommers, o roteiro nos traz uma história envolvente, crível em seus detalhes e inteligente, preenchida de subtextos, ligações e detalhes. Evidentemente, Chris e Erik compreendem a importância de um personagem bem construído, bem como de tudo que o faz possuir uma evolução, desde conflitos internos e externos até aspirações e interações.

Esses pormenores só têm o peso que têm porque os atores, mais uma vez, fazem um trabalho incrível e atencioso assumindo os papéis que lhes foram designados sem hesitar em se entregar de corpo e alma. Suas expressões corporais e faciais, suas interações e ações tão naturais como se tudo lhes pertencesse, o que de fato os pertence; passou a pertencer no momento que se tornaram as próprias personificações daqueles que sempre vimos nas páginas das histórias em quadrinhos, deixando claro, caso ainda houvesse alguém com dúvidas, terem sido as escolhas certas.

Gif Homem-Aranha: Longe de Casa Peter Parker
Perceba aqui, a externalização da dor, a mesma que tantas vezes vimos nos quadrinhos, quando o Happy diz "Eu não acredito que Tony faria o que fez se ele não soubesse que você estaria aqui" para o Peter

Tal naturalidade entre personagens é essencial para apresentar à nós, telespectadores, uma história que nos cerca, que nos traz familiaridade apesar de um universo fantástico, enxergando pessoas que, de alguma forma, fazem parte do nosso cotidiano; pessoas essas com suas personalidades únicas, algumas fortes, bordões e maneira típica de cada idade.

Um exemplo disso é Michelle Jones (MJ), vivida por Zendaya Maree. Uma personagem forte, inteligente e decidida, que também é alguém que solta curiosidades incomuns do nada, com uma imagem que a acredita a proteger do mundo e com uma forte crença pessoal. Incontestavelmente uma adolescente.

Gif Homem-Aranha: Longe de Casa Peter Parker e MJ
A maneira dela agir ao dizer "Você está bonito também" para Peter demonstra a incerteza e vergonha de aceitar o elogio de primeira, justamente por isso ela o provoca antes dizendo "portanto eu tenho valor?".

Entretanto, outras duas personalidades são importantes de destacar: Nick Fury, por Samuel L. Jackson, e Quentin Beck, por Jake Gyllenhaal. A química dos dois com Peter é fantástica, numa óbvia divergência entre suas ações ao redor do garoto, que com um tem o respeito derivado do medo e noutro derivado do companheirismo. É uma dinâmica muito interessante de se ver, principalmente levando em conta a pressão que Fury coloca sobre o Teioso desde o início.

Há uma grande expectativa em cima do Cabeça-de-Teia sobre ele ser o próximo Homem de Ferro, sobre ele assumir o manto do líder dos Vingadores. Tudo isso enquanto ele ainda sofre a perda de alguém que amava e o compreendia, o que todos nós temos consciência da dificuldade; tornando assim fácil a percepção dos avanços de Parker pelos passos do luto (foco em negação e raiva) ao mesmo tempo que evidencia como esses passos não são tão preto-no-branco como pensamos.

Justamente por isso é inevitável não prender a respiração de angústia, especialmente se você for um grande fã de Homem de Ferro. O Tony Stark interpretado por Robert Downey Jr. durante esses 11 anos da fase 1 à 3, tem uma presença quase palpável, reforçando o enunciado de Kevin Feigh, de que os impactos do realizado em Ultimato deixarão marcas por muitos filmes que virão.

Com enfoque na questão de legado e luto, o filme constrói uma graciosa homenagem, dá continuidade à arquitetação de personagens inesquecíveis de maneira surpreendente e esforça-se em ser realista e detalhista no modo como os trata, sem subestimar a inteligência de sua audiência. Em outras chulas palavras, se trata de uma pornografia para escritores e estudantes de cinema, gostoso de assistir e sem dúvidas o filme preferido do gênero de heróis deste que vos escreve.

Gif Homem-Aranha: Longe de Casa Happy
"Hey, desculpe o atraso"

Jota Albuquerque

Jota é mais um jovem adulto vagando pela vida sem a menor ideia do que está fazendo (ou acontecendo). Tradutor Intérprete em formação, também pensa em se meter com Ciências Políticas e/ou Cinema. Um ser necessitado de paciência e autopreservação, ele é também um paulistano romântico viciado em pesquisas. Se tiver dúvidas de onde encontra-lo, é só seguir as trilhas de discussões políticas que há por aí.

Crítica: Homem-Aranha: Longe de Casa, de Jon Watts Crítica: Homem-Aranha: Longe de Casa, de Jon Watts Reviewed by Jota Albuquerque on julho 16, 2019 Rating: 5

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