Conheça o projeto Meninas e Mulheres na Ciência

Conheça o projeto Meninas e Mulheres na Ciência

Quantas cientistas mulheres você consegue se lembrar? Sem contar com a Marie Curie?

Pois é, aposto que no máximo uma ou duas e isso sendo muito otimista. A verdade é nos acostumamos a ver a ciência nas mãos dos homens e graças a séculos de apagamento histórico não temos ideia da quantidade de mulher incrível que ajudou a tornar o nosso mundo o que ele é hoje. Apesar de as coisas terem melhorado bastante nos últimos anos, experimente perguntar a uma menina se ela já pensou em ser cientista. É por essas e outras que surgem iniciativas como o Meninas e Mulheres na Ciência, um projeto que tem como objetivo principal mostrar que esse mundo é possível para elas também.

Eu conheci a Fernanda Furtado (uma das fundadoras do projeto) esse ano, durante a Semana do Cérebro no instituto onde eu trabalho e fiquei encantada. Talvez se eu tivesse participado de alguma oficina que elas realizam eu não tivesse demorado tanto a entrar no mundo da ciência HAHAHAHAHA. Então nada melhor do que trazer essa reflexão pra cá e quem sabe inspirar outras moças, não é mesmo? Entrei em contato com a Fernanda e aqui está uma entrevista com ela falando sobre o projeto, a ciência no Brasil e outras coisas mais.

Bora?

Pra começar, conta um pouquinho como foi sua trajetória pelo mundo da Ciência?

Eu comecei minha carreira na ciência em 2011 quando entrei na faculdade de Geologia na UERJ. Em 2014 eu tive a oportunidade de continuar meus estudos como geóloga na Califórnia pelo Ciências sem Fronteiras. Estudei um ano e meio na California State University e ainda consegui um estágio de verão na University of California, em Santa Barbara, uma das mais renomadas do mundo. Voltando para o Brasil atuei em diversas empresas do ramo petrolífero: na PetroRio, na Agência Nacional de Petróleo (ANP) e na Total (uma multinacional francesa). Agora estou me mudando em Agosto para França onde farei meu Mestrado no Instituto Francês de Petróleo, completamente patrocinado pela Equinor, que é uma grande empresa norueguesa.

Como se deu o surgimento do projeto?

Eu sempre fui militante no feminismo e desde o momento que entrei na universidade vi como mulheres eram raridade na minha área de atuação. Quando morei na Califórnia percebi como lá investem e fazem projetos para combater a desigualdade de gênero nas áreas de ciências e tecnologias, e meu primeiro sentimento foi: preciso trazer isso para o meu país. Ao voltar para o Brasil eu coloquei como objetivo fundar este projeto social quando que me graduasse, e assim foi. Conversei com as amigas, as amigas foram chamando as amigas e o projeto foi criando uma rede de mulheres cientistas e estudantes que se uniram por esta causa. Inicialmente era para ser um evento anual, mas hoje o projeto conta com cerca de 50 voluntárias e fazemos atividades todos os meses do ano.

Quais são as principais metas e objetivos do Meninas e Mulheres na Ciência?

Eu sempre gosto de destacar que o maior objetivo do nosso projeto é fazer com que meninas saibam que elas podem ser o que quiserem. Se depois de nossos eventos poucas quiserem fazer ciência, tudo bem, mas se elas saírem de lá acreditando em si mesmas, nosso objetivo será cumprido.

Nós queremos inspirá-las com o exemplo de mulheres inspiradoras, pois mulheres cientistas também merecem e precisam de visibilidade. Por fim, queremos mostrar que ciência é interessante, não é só aquela fórmula no quadro, por isso fazemos oficinas de ciências com experimentos práticos para incentivá-las a gostarem de ciências.

I Semana de Meninas e Mulheres na Ciência
Alguns dos materiais doados pelos patrocinadores e sorteados na I Semana de Mulheres e Meninas na Ciência
(babando por essa camisa)
O projeto ganhou visibilidade a partir da Semana de Meninas e Mulheres na Ciência no ano passado. Como estão as atividades agora em 2019?

O primeiro ano foi muito difícil, tivemos pouco apoio e muito trabalho. Mas com o sucesso da Primeira Semana de Meninas e Mulheres na Ciência nós estamos conseguindo organizar a segunda edição com muito mais apoio e fluidez. Já temos data, já estamos montando o cronograma, convidando as palestrantes e teremos muitas novidades.

E sobre a segunda edição da Semana, pode adiantar pra gente como vai ser?

Ah todo mundo vai precisar seguir a página @mmciencia para saber! Brincadeira! A primeira coisa que posso adiantar é que o formato será parecido com a primeira edição, mas com muitas novidades. Continuaremos com todas as atividades gratuitas e no mesmo local: na UERJ. Além de oficinas de ciências para meninas em fase escolar e palestras para todos os públicos, este ano contaremos com oficinas comportamentais exclusivas para mulheres. Ensinaremos para a mulherada oratória, comportamento em entrevista de emprego, empreendedorismo, educação financeira e reparos elétricos. Queremos meninas e mulheres na ciência, mas acima de tudo queremos que elas sejam livres e empoderadas.

Projeto Meninas e Mulheres na Ciência
Enquanto o post não ficava pronto, SAIU A DATA!!! Anotem na agenda!!

Desde o início desse ano a Ciência brasileira vem sofrendo vários ataques e cortes de verbas por parte do atual governo. Quais os impactos desse panorama tanto no projeto como no dia a dia de vocês?

As mulheres já são minoria nestas áreas científicas, então quando existem cortes, são muito afetadas. Muitas amigas estão perdendo bolsas de pesquisas, ou assim como eu, saindo do país por falta de oportunidade e de valorização aqui. Na maioria dos países desenvolvidos a educação e ciência são prioridades até em tempos de crise, pois país nenhum cresce eliminando estes investimentos. Todo cientista sabe disso e neste setor o clima de desesperança está imperando.

Alguns dos principais líderes políticos do nosso país e do exterior, como Trump e Bolsonaro, demonstram profunda descrença com relação ao trabalho científico. Essa postura anticientífica é capaz de afetar a credibilidade das pesquisas e projetos?

Com certeza é algo muito prejudicial, pois não existe desenvolvimento sem ciência. Se as pessoas que lideram o país não acreditam na ciência, passar este conhecimento para o povo se torna uma tarefa ainda mais difícil. Vemos como reflexo grupos que acreditam que a Terra é plana e contra vacinas crescendo. Não apenas cientistas são prejudicados com os cortes e com esta oposição ao trabalho científico. A ignorância é muito perigosa, doenças já erradicadas estão voltando por falta de credibilidade do povo na ciência.

Além disso, ainda houveram alguns episódios de fraude em currículos Lattes.... acha que isso pode afetar ainda mais negativamente a opinião pública em relação aos pesquisadores (que já não é das melhores)?

Com certeza fraudes pioram a nossa situação, mas acredito que logo estas polêmicas serão esquecidas.

No ano passado, o movimento Parent in Science levantou a proposta para que o período de licença maternidade/paternidade seja incluído no currículo Lattes, o que foi acatado pelo CNPq. O que vocês pensam dessa mudança e quais os impactos positivos e negativos para as pesquisadoras que são ou pretendem ser mães?

Acredito que seja uma iniciativa muito importante pois cientistas não possuem licença maternidade ou paternidade. Cientistas são cobradas a produzir em todas as fases da vida como se não possuíssem uma vida pessoal também. Acredito que com um tempo os editais de bolsas e concursos passarão a considerar este momento da mulher para que haja uma concorrência justa. A UFF já começou a fazer isto e espero que a "moda" pegue.

E por fim, tem alguma mensagem que deseje deixar pras meninas e mulheres que estejam lendo esse post?

Acreditem nos seus sonhos. Sejam as suas maiores incentivadoras. A sociedade fala muito para as minorias "se esforçarem", mas sabemos que nós já nos esforçamos demais. O que falta para nós mulheres alcançarmos a igualdade são duas coisas: autoconfiança e oportunidade. Nunca deixem ninguém dizer que vocês não são capazes ou que não podem ser algo por serem mulheres. A maior revolução que podemos fazer está dentro de nós. Se todas as mulheres soubessem do próprio potencial, nós dominaríamos o mundo.


Você encontra o projeto Meninas e Mulheres na Ciência no:

✔️Instagram
✔️ Facebook
✔️ Site oficial


Isabelle Fernandes

Mais conhecida como Bells, é psicóloga, pesquisadora e praticante de taekwondo nas horas vagas. É mãe de três gatos, trata os livros como se fossem relíquias e divide o tempo entre ler artigos científicos e mapas astrais

Conheça o projeto Meninas e Mulheres na Ciência Conheça o projeto Meninas e Mulheres na Ciência Reviewed by Isabelle Fernandes on julho 20, 2019 Rating: 5

Nenhum comentário:

Tecnologia do Blogger.