O que eu aprendi, enquanto gordo, sobre a comunidade gay




Ser gordo já não é fácil numa sociedade que geralmente não possibilita nossa existência nos espaços, tanto que o que não faltam são desabafos no Twitter (ou qualquer outra rede) sobre como foram tratados em alguma loja, com algum médico ou em algum transporte (como ônibus ou avião). Não sei porque, só sei que questionei como me sentia sobre isso quando entendi minha sexualidade e hoje percebo, compreendo melhor.

Infelizmente, parte do meu ódio em ser gordo no início da minha adolescência não era sobre ser gordo em si; era mais focado em saber que ser gordo me impossibilitava de ter alguém que gostasse de mim. Por mais que isso não fosse de fato verdade e meus pais dissessem isso sempre, eu ainda lembro de me lavar com ódio durante o banho. Ainda lembro de chorar no banho porque eu nunca teria alguém gostando de mim. E ainda lembro de achar que eu não era lindo, de acreditar que eu não era maravilhoso e dono de um corpo maravilhoso.

Hoje eu sei que, na realidade, se alguém me desprezar, achar feio, não ligar pra mim só por uma questão tão frívola quanto ser gordo não é de mim que eu devo duvidar. A pessoa é idiota, e tudo bem, porque vai ter alguém que vai me querer, não independente disso, mas por tudo isso. E infelizmente a comunidade, especificamente a gay mesmo, é um tanto quanto tóxica em relação à não ser musculoso, não ser magro e não ser o que eles esperam (no quesito sexual, mesmo).

Além de presenciar xingamentos online, entre outros acontecimentos que me marcaram, teve um episódio em particular (talvez tenha sido no ano passado, eu não lembro direito) que eu não esqueço e hoje acho potencialmente engraçado. 

Estava flertando por mensagem, o cara me enviou foto da barriga sarada e eu fiquei "ok, o que eu faço agora? Envio da minha também, né, vamo lá" e foi o que eu fiz, sendo bloqueado logo em seguida. Eu contei pra minha mãe, conversamos sobre o ocorrido e falei que apesar de ficar mal, aquilo tudo me afetou de maneira bem menos negativa do que antes, eu só fiquei me questionando como e por que existe tanto gordofóbico dentro da comunidade.

Óbvio que eu sei a resposta: a nossa sociedade em si é horrível com corpos fora do que foi estabelecido como padrão. Ser gordo é estar jogado pra fora da sociedade até em questões mais básicas impossíveis, como por exemplo a questão de roupas e assentos mencionadas no início desse texto. Essa reflexão é só a fagulha de algo muito mais profundo, e claro que um mundo construído e moldado para as pessoas magras jamais iria se preocupar com a gente, a não ser que a preocupação seja em nos ofender ainda mais.

Existem momentos que eu ainda me vejo dessa maneira negativa que pintam,  especialmente após um dia particularmente ruim, que afeta minha autoestima e toda a estrutura de bem-estar que eu construí pra mim mesmo. Ma, se isso acontece, eu volto ao zero e reinicio meu momento, respiro fundo, me olho no espelho e falo "isso não é você, essa visão é dessas pessoas que não sabem nada da vida".

Porque não é mentira quando dizem que autoestima é um trabalho diário, seja com baixa ou alta autoestima. Não é brincadeira aqueles desabafos das pessoas dizendo que quando começaram a mudar o modo de se referir à si mesmo, que começaram a se elogiar diariamente e reconhecer, nem que fosse aos poucos, algumas qualidades, elas perceberam como eram lindas. 

Porque é assim que se começa, é assim que você começa a perceber pontos que antes, na mudança de olhar e na maneira de agir consigo mesmo. O mundo já maltrata demais a todos nós pra gente também fazer isso. 

São pequenos passos que a gente consegue dar, mas que revolucionam o nosso interior. O simples detalhe mudado de não se depreciar e reparar em coisas que você gosta de si, ou que quer gostar, é o suficiente pra começar a apodrecer e acabar com tudo que colocaram de destrutivo em nossas mentes. A revolução não começa do dia pra noite, mas sim aos poucos.

Jota Albuquerque

Jota é mais um jovem adulto vagando pela vida sem a menor ideia do que está fazendo (ou acontecendo). Tradutor Intérprete em formação, também pensa em se meter com Ciências Políticas e/ou Cinema. Um ser necessitado de paciência e autopreservação, ele é também um paulistano romântico viciado em pesquisas. Se tiver dúvidas de onde encontra-lo, é só seguir as trilhas de discussões políticas que há por aí.

O que eu aprendi, enquanto gordo, sobre a comunidade gay O que eu aprendi, enquanto gordo, sobre a comunidade gay Reviewed by Jota Albuquerque on junho 13, 2019 Rating: 5

Um comentário:

  1. Obrigado por tudo , orgulho pelo homem que se tornou! Você é maravilhoso, pessoa incrível. Amo você incondicionalmente.

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