Exaltando Jane Austen



Eu faço parte de um clube do livro cujo Jane Austen é proibido, mas, Austen é minha escritora favorita e eu não perco uma oportunidade de pregar a palavra, apesar da proibição. Na verdade, essa ainda é uma grande questão para mim, porque iriamos ler Persuasão (no meu caso seria releitura) e o pessoal esnobou, não leu, não curtiu. 

ABSURDO, não superei. Tudo isso aconteceu e o nome passou a ser proibido. Agradeço a existência da internet que me permite vir aqui exaltar essa autora e suas obras. É isso: esse é um texto de exaltação a Jane Austen.

A escrita de Austen pode parecer difícil e cansativa para muitos ou parecer chata e sobre algo que ninguém quer saber, mas discordo. Ela só quer fazer que nós observemos o que realmente importa, que na verdade o mundo não necessariamente muda: é só o tempo que passa. Ela apresenta em seus livros como era a sociedade em que vivia e nos diz que é a mesma sociedade em que vivemos e que nós devemos aprender, crescer, amadurecer , e tudo o mais.

Uma das coisas que amo na escrita dela é o seu senso de humor, a habilidade de debochar não só da sociedade como dos seus personagens na cara dura, rainha do deboche total. Entretanto, esse humor é algo tão inglês que acaba por não agradar a todos, uma pena, pois uma habilidade que ela definitivamente tem é rir, dos outros e de si. Me parece que Jane está o tempo todo dizendo para não levarmos a vida tão a sério, no mesmo passo que deixa claro que a vida de uma mulher não é uma vida fácil, e que nossas escolhas, quando conseguimos ir contra todas as probabilidades, são por vezes dolorosas.

Lendo um pouco sobre sua vida, já conseguimos ter um vislumbre das consequências que as decisões de Austen trouxeram para si. Seus seis romances, suas novelas inacabadas e a obra reunida Juvenília parecem recortes da mulher que ela era, e das mulheres que conheceu. Toda vez que reli suas obras, e mesmo na minha primeira leitura, a sensação que tenho é a de que estou ouvindo pequenos segredos, lendo o diário, montando o quebra-cabeça que não será nunca terminado (ela quis assim), vendo particularidades dos desejos e personalidades da Jane jovem e adulta, sem ordem ou confiabilidade.

Por exemplo, na biografia Jane Austen - Uma vida revelada, de Catherine Reef somos informados que Austen começou a publicar seus livros num momento cujo o bum era livros de exploração, relatos de viagens, uma coisa mais de aventura. Romances que ilustravam a vida rural dificilmente atrairia a atenção dos leitores, contudo, foi justamente sobre isso que Jane resolveu falar, e se em sua época seus livros tenham demorado para serem vistos com significativos, hoje, são estudados como clássicos da literatura.

Há quem critique Austen como uma autora para mulheres (?) cuja obra não trás um enredo dinâmico, além do fato de os romances terminarem com os protagonistas juntos tal como contos de fadas, e assim sendo, vistos de maneira desdenhosa. Entretanto, ao observarmos como esses “finais felizes” acontecem, como os casamentos são formados, quem são os verdadeiros protagonistas das obras, percebemos que nas entrelinhas Jane dá voz justamente aqueles que não tinham voz na sua sociedade. Nas suas obras, as mulheres estão no meio de tudo, são elas que conduzem a trama, e mesmo quando parecem pequenos para nos leitores do século 21, são suas heroínas que tomam decisões sobre suas próprias vidas. 

É interessante observar que mesmo para personagens secundárias é dado esse lugar de escolha. Observemos por exemplo a Charlotte, de "Orgulho e Preconceito". A melhor amiga de Elizabeth faz uma escolha que a própria Lizzie não fez, e que muitas de nós também não faria. Entretanto, sua justificativa para seus atos é tão racional, Charlotte sabe das suas limitações e opções naquela sociedade, e Jane Austen nos expõe que, apesar da escolha um tanto triste, ainda sim foi uma escolha, numa época em que mulheres não escolhiam. É assim, de sutileza em sutileza, que seus trabalhos vão sendo construídos, questionando e ironizando os costumes da época, colocando as mulheres como seres pensantes, com qualidades, mas também defeitos, capazes de atos heroicos e mesquinharias como qualquer ser humano. Falar das mulheres escritas por Austen, é falar de mulheres que desafiavam e pensavam. 

O crítico James Wood resume muito bem quem são as personagens femininas de Austen. Segundo ele, suas protagonistas são pessoas conscientes da realidade em que vivem, porém não resignadas com o papel que esperam que elas exerçam. Em seu livro "Como Funciona a Ficção", Wood expõe que a crítica social de Jane Austen funde-se com suas crenças sobre o lugar da mulher, seus deveres e obrigações e até onde essas mulheres podem ir. 

Além do mais, em suas obras, Jane fala da sociedade que conhece, da vida de cidadãos comuns que vivem a repetição do cotidiano, onde qualquer novidade é um grande acontecimento, seja uma mudança de cidade, seja uma temporada na casa de uma amiga ou ainda visitas que param para tomar um chá. Cada pequenina alteração do habitual é sentida de maneira efusiva, de forma positiva ou não, nos dando uma bela representação de como talvez fosse a vida nesse século. Eu não duvido nada que numa época sem as tecnologias que temos atualmente, saber que uma pessoas alugou uma casa tenha sido um acontecimento, ainda hoje no meu bairro isso seria motivo de fofoca.

Taiany Araujo

É mais uma millennial cheia de sonhos, medos e uma paixão pelos anos 90. Fã de Legião Urbana, não dispensa música brega e se identifica como uma mistura de Rubel e Caetano. Não é estranho pegá-la falando sozinha, muito menos perde-la de vista, mas, é só dizer a palavra “livro” que ela aparece mais rápido que fã de Harry Potter pedindo pra colocar os filmes na Netflix.

Exaltando Jane Austen Exaltando Jane Austen Reviewed by Taiany Araujo on maio 04, 2019 Rating: 5

Um comentário:

  1. Particularmente não me apetece a escrita da Jane Austen, mas adorei o texto e reconheço a importância da escrita dela. A única pena é ela ter sido banida do seu grupo de leitura! )':

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