[Resenha] Reticências, de Solaine Chioro


Eu não tenho nada contra clichês, muito pelo contrário: amo toda essa fórmula que a gente já sabe o que vai acontecer e mesmo assim fica torcendo, sofrendo e com medo até o último minuto, pois algo pode dar errado. 

O que eu não aguento mais assistir é: homem cis hétero branco encontra mulher cis hétero branca que é atrapalhadinha e tropeça em tudo, se acha gorda mesmo não sendo, e o homem faz questão de dizer “Claro que você não é gorda, você é LINDA”. São essas histórias que eu não aguento, e que graças a muitos escritores, que como eu também não aguentam mais esse conceito limitante, estamos vendo coisas diferentes por ai. Uma dessas é Reticências, da Solaine Chioro.
Joana (@vidaspretas) tem uma conta famosinha onde posta artes autorais com frases bacanas sobre vivências de pessoas negras. Davi (@caradaprefeitura), que trabalhava como freela de social media da prefeitura, entrou em contato com @vidaspretas e a contratou para ilustrar uma campanha para o mês da consciência negra. Os dois se aproximaram, trocaram muitas mensagens e acabaram continuando o contato mesmo depois do trabalho acabar. Quando saiu da prefeitura, Davi perguntou se ela queria adicioná-lo na sua conta pessoal, mas Joana gostou da ideia de manter o mistério, e sentiu que podia falar mais abertamente com ele sem saber quem estava do outro lado, por isso, Davi acaba criando uma conta só para falar com ela. Há seis meses trocando mensagens, nenhum dos dois tomou a iniciativa de dizer quem realmente são na vida offline. É quando Davi começa como temporário da empresa de marketing em que Joana trabalha e os dois se odeiam logo de cara, sem saber que são a crush virtual um do outro. 
Só pela sinopse eu já tinha sido convencida a ler esse livro, é tudo que um fim de semana relaxante pede. Eis então que leio e percebo que ele era mais, ele era REPRESENTATIVO. Um livro simples, curtinho, e que ainda assim consegue ilustrar o que tantos outros falham, uma história com pessoas reais.

Descrição de personagens negros: Nesse livro os personagens negros não são apenas descritos como negros, eles são descritos com o olho x, o tom de pele assado, os cabelos, lábios, altura... Tudo que compõe uma descrição de como é a pessoa para que possamos visualizá-la. O que era para ser comum, mas se tratando de personagens não brancos, nem sempre acontece.

Representatividade. Em um livro tão fininho, a autora conseguiu o que muitos livros de 500 páginas não têm: colocar pessoas diversas na sua história. Gente branca, negra, magra, gorda, hétero e LGBT+, com necessidades específicas ou não. Dando espaço para esses personagens e não os transformando em figuras que estão ali para preencher lacunas.

Uma coisa que acho importante falar sobre representatividade em livros, filmes, serie, etc, é o fato de não querermos necessariamente TODAS as representatividades do mundo no mesmo livro. Não é você pegar todos os grupos e minorias e tacar na sua história, isso não é respeitar as diferenças.  Utilizar as representatividades de forma consciente é perceber que o mundo e as pessoas são plurais, e tem vozes diversas que querem falar e serem ouvidas. É pedir ajuda para quem entende aquela vivência sobre como representar bem o personagem, seja com uma leitura de sensibilidade ou de outro modo, é escrever sobre pessoas reais. Não é difícil colocar representatividade nas histórias se você enxerga, valoriza, respeita e convive com pessoas para além de uma bolha dominante. 

Protagonistas gordos. E não, não é  mulher gorda que se acha feia encontra homem magro que se apaixona por ela apesar disso, e consegue provar que ela é sexy e linda. Nem homem gordo que encontra mulher magra que o acha forte e protetor. Em Reticências, Chioro nos apresenta dois protagonistas gordos que são só isso, dois protagonistas gordos. Não tem grandes revelações, impactos, nada a superar. 

Eu li esse livro em um dia, é rapidinho de ler, e terminei me sentindo tão feliz, tão realizada. Espero sinceramente que mais histórias como está estejam sendo escritas e que outras pessoas possam ler e sentirem essa emoção de que as coisas vão melhorar. Já estão, mesmo quando a gente acha que não.




Ficha técnica


 
Nome: Reticências
Autora: Solaine Chioro
Editora: Página 7
Disponível em: Amazon






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Taiany Araujo

É mais uma millennial cheia de sonhos, medos e uma paixão pelos anos 90. Fã de Legião Urbana, não dispensa música brega e se identifica como uma mistura de Rubel e Caetano. Não é estranho pegá-la falando sozinha, muito menos perde-la de vista, mas, é só dizer a palavra “livro” que ela aparece mais rápido que fã de Harry Potter pedindo pra colocar os filmes na Netflix.

[Resenha] Reticências, de Solaine Chioro [Resenha] Reticências, de Solaine Chioro Reviewed by Taiany Araujo on abril 24, 2019 Rating: 5

Um comentário:

  1. Amei a resenha e fiquei curioso sobre o livro. Parece daqueles que faz cócegas na alma. :3

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